Tag Archives: smart

Orgulho para todos os gostos

Não posso dizer que sou exactamente um ás da mecânica. Na verdade, o meu talento nessa área equivale às minhas aptidões para o bricolage e trabalhos manuais, que estão ao nível de um orangotango que nunca tenha visto o “Querido mudei a casa”.

Sucede que tive recentemente que levar a caixa de fósforos ao mecânico. Sempre que lá vou tenho a preocupação de ensaiar em casa duas ou três frases de circunstância, qualquer coisa como “Aqui há tempos tive uma chatice com a bomba de óleo”, que procuro apresentar sempre com um ar entendido. A minha esperança é que consigo convencer o senhor que está perante alguém que percebe qualquer coisa do assunto, dissuadindo-o assim de se esticar muito nas doenças que encontra. O problema é que a frase sai-me sempre com a segurança e naturalidade com que uma mulher disserta sobre a lei do fora de jogo. Inevitavelmente lá tenho de ouvir a primeira frase do Juramento de Hipócrates dos mecânicos: “Pois é amigo, isto vai ser complicado.” Eu já parto do princípio que vou ser enganado, o que vai variar é o grau e a intensidade com que isso acontece. Faz-me confusão ouvir as pessoas usar a expressão “tenho um mecânico de confiança”, acho que é tão apropriado aplicar o termo “confiança” a um mecânico como a um traficante de droga ou um astrólogo africano. Ainda estou um bocado traumatizado da última vez que fui à oficina: tinha uma porta que não trancava e saí de lá com um acelerador de partículas e um detector de anti-matéria.

No entanto, apesar de tudo, posso dizer que tenho muito orgulho no meu carrinho e aguento bem as bocas do costume: “Epá, porque é que compraste só meio carro?”, “Ouve lá, isso é carro de gaja!!” ou “Caramba, como é que consegues ser tão lindo e sexy?”. O trivial. Na verdade, sinto uma espécie de orgulho paternal pelo carrito: anda sempre na bordinha do passeio e quando vou às compras prendo a jante com um cadeado ao poiso das bicicletas, com receio que um desses bisontes ucranianos o leve por engano junto com os sacos das compras. Ora, bem me lixei com a questão do orgulho:  além do paternal, tive de lidar com o orgulho gay.

Esta semana armei-me em homenzinho e lembrei-me de espreitar o nível do óleo. Como nunca tinha mexido naquilo e o motor, parecendo que não, é uma coisa que acaba por fazer sempre falta, resolvi primeiro fazer umas navegações sobre o assunto. O primeiro resultado de pesquisa que me aparece por “mudar óleo smart” é um link para o site PortugalGay.pt. “Oh diabo…”, pensei para comigo, “Isto começa bem.” Dei uma olhadela à primeira página de resultados e nenhuma delas aparentava ser de grande utilidade, pelo que resolvi arriscar. Lá carreguei no link com a espontaneidade com que o Gilberto Madaíl avia uma água natural ou um suminho de laranja. Pouca, portanto. Logo no topo, um banner com um anúncio a uma sauna LGBT. Ainda pensei que era tudo um equívoco lamentável e que “mudar o óleo” fosse alguma espécie de linguagem técnica sobre a qual eu não tinha a mínima vontade de obter esclarecimento. Mas não. Meia dúzia de fotos de rapazinhos em trajes menores depois, lá cheguei à parte do Smart. O primeiro link revelou-se um verdadeiro murro no estômago: “Porque é que o PortugalGay.PT tem uma secção sobre smarts?” Ai. Ora, para alguém que comprou o veículo na esperança que o ia ajudar a engatar miúdas, esta pergunta não era exactamente um bom presságio. Meio encolhido, aventurei-me a abrir a galeria de fotos das viaturas, sempre com receio de levar com um rapagão núbio olho adentro. Finalmente lá acabei por encontrar o tutorial explicando tudo e mais alguma coisa, impecavelmente arrumadinho, como não podia deixar de ser.


%d bloggers like this: