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Uma vida toda de mãos dadas

charuto_dannemann_whisky_dalmore1“A vida é feita de pequenos prazeres”. Não sei quem é o autor da célebre frase, mas tem razão. E se há coisa certa no mundo é que muitos desses pequenos prazeres andam de mãos dadas com outros.  Um bom queijo sabe melhor com um bom vinho tinto, um bom charuto é o companheiro ideal de um bom whisky e o sexo oral é muito melhor quando é feito entre duas pessoas. E também menos propenso a lesões na coluna. Infelizmente, também as coisas más insistem em andar aos pares, como o racismo e a ignorância, a crise e o desemprego, a polícia e a detenção do meu dealer… No entanto, há uma coisa que, por mais voltas que dê à cabeça, ainda não consigo definir se é um pequeno prazer ou uma coisa má, a relação amorosa entre o PSD e a Igreja!

Há já muitos anos que a Igreja e o PSD jantam à luz de velas e têm relações sem preservativo. Se é certo que muitos dosjardim filhos desta relação nasceram com algumas deficiências, principalmente de carácter, é também certo que já me proporcionaram muitas horas de riso e-sinceramente- ajudaram-me bastante no meu trabalho. Cavaco e a Nossa Senhora, o chumbo do PSD às audições de Jardim Gonçalves e Teixeira Pinto sobre a fraude BCP, o milagre do desaparecimento dos documentos das SWAPS… Com o PSD e a Igreja juntos, nunca me faltou material para escrever.

Mas não sou só eu que lucro com esta relação, os próprios envolvidos também. E por isso é que às vezes fico a pensar que este pode ser um casamento mais por interesse do que por amor. Por exemplo, sempre que o PSD está em baixo e abatido, sabe que pode contar com a Igreja para entrar numa missa e ser mais aplaudido que o Jorge Jesus no Porto. Sempre que 12-FERNANDO-RUAS-02-GMMestá atrás nas sondagens ou com medo das eleições, o PSD sabe que pode utilizar as instalações da Igreja para distribuir cheques pelos eleitores e, se o candidato não estiver afónico, até pode dar umas palavrinhas durante a eucaristia. Em troca, a Igreja pode enviar os seus primos da Opus Dei para o PSD e este garante-lhes emprego, comida e cassetes com o Paulo Rangel a falar para se poderem penitenciar à vontade. E isto é mau porque mata o sonho do amor romântico, como o amor entre o Romeu e a Julieta, ou entre o Portas e o poder.

Resta-me esperar que um dia consiga descortinar se este par é uma coisa má ou um dos pequenos prazeres do mundo. O que certo é que funcionam muito bem juntos, assim como é certo que terei muito tempo para chegar a uma conclusão. Sim, porque a Igreja e o PSD são como a SIDA e o funk brasileiro: inseparáveis!

funk

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Diários de um homem santo

diariosDia 3 de Janeiro

Não sei o que raio pensa esta gente. Como é que uma mulher com 5 filhos e desempregada consegue cair na cantiga e dar-me para a mão 10 euros sem pedir nada em troca? É que nem foi preciso puxar muito por ela! Três ou quatro frases feitas, um tom de voz calmo mas firme, uma falsa ameaça moral e já está. Não sei quem é que inventou isto, mas sei que o gajo percebia mais de burla do que o Vale e Azevedo. Abençoado seja!

Dia 14 de Janeiro

O António está a crescer. Na última semana cresceu-lhe o buço e já começou a mudar a voz. Não faltará muito para começar a ganhar pelos na pernas e braços e para começar a sair à noite com os colegas. Está na altura de o deixar ir. O Jorge é mais novo, ainda tem alguns anos de criancice pela frente. Terei de me contentar com isso por agora. Hoje já vai ficar mais umas horas comigo, a aprender o que preciso. Tenho de ir à mercearia comprar mais caramelos.

Dia 29 de Janeiro

O jantar com o Presidente da Câmara não podia ter corrido melhor. Boa comida, vinho do melhor, digestivos de bradar aos céus, tudo pago pela autarquia, e ainda consegui aquilo que queria. Este pessoal da política passa meia dúzia de anos no poder e esquece-se de quem realmente manda na coisa. Eles estão lá 4 ou 8 anos, eu estou cá até querer! Mas pronto, ficou tudo resolvido. Eu faço campanha no meu trabalho e a Câmara dá-me o terreno junto ao rio, ainda paga 80% da construção do edifício e fecha os olhos aos meus negócios “paralelos”. Por falar nisso, tenho de telefonar ao Khalil a ver se já receberam as munições.

Dia 7 de Fevereiro

Que noite! Estes encontros com colegas são sempre uma desgraça. Estou com uma ressaca que nem me tenho em pé! Nem sei como é que o José não se vomitou todo. O gajo deve ter fumado uns 3 maços de tabaco só à noite… fora os petardos! O outro não sei, mas se é assim que se festeja no Fundão, vou pedir a transferência! Até tenho medo de ir ver como está a sala… Espero que pelo menos tenham levado a puta embora e deixado um bocado de coca.

Dia 14 de Fevereiro

Hoje vem cá o Jorge,  já não o vejo há uns dias. Foi com a mãe cinco dias de férias a França, mas hoje está cá. Estou com saudades. Preparei um almoço especial e tenho uma surpresa para ele. Espero que ele não esteja tão tenso como da última vez. Se calhar hoje deixo-o provar um copo de vinho ao almoço, para ficar mais relaxado.

Dia 16 de Fevereiro

Eh pá! Hoje estou uma pilha! Perdi duas horas no trânsito por causa de uma manifestação gay qualquer! Malditos paneleiros! Havia era de haver pena de morte para eles todos. Homens feitos a levarem com outros homens feitos, gajas a chafurdarem umas nas outras como porcos na manjedoura!  Aberrações, é o que é. “Somos todos iguais”… Vocês são é um receptáculo de SIDA, seus nojentos! É que nem vou esperar, deixa-me só entrar ao serviço e vão ver se não vou convencer toda a gente disso mesmo, hoje! Para alguma coisa serve este trabalho.

Dia 17 de Fevereiro

Vou emigrar. Os anos de serviço irrepreensíveis finalmente chamaram a atenção. Telefonou-me agora o José a dizer: fui nomeado novo Papa.


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