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Amanhando um pargo no Continente

Sempre desenvolvi com a escola uma espécie de relação liberal:  ela no cantinho dela, eu no meu, sem pressões ou exigências sufocantes. Viamo-nos em encontros fugazes uma ou duas vezes por semana e pouco mais que isso. Paralelamente, nunca nutri particular entusiasmo pelo folclore académico. E atenção que até podia ter chegado longe na hierarquia: pelos 10 anos que levei para acabar o curso, quem sabe teria chegado a Duque, ou Dux, ou o que raio chamam ao gajo que manda naquilo tudo, à conta do insucesso escolar. Suponho que é uma carreira como outra qualquer, afinal de contas há tanta e tão interessante matéria para regular em assuntos como “Rasgões na capa”.

Ainda assim, o que mais me chateava (e chateia) na vida académica era a questão das fitas. Todos os anos lá aparece meia dúzia de alminhas a pedir que assine a fita. Se for um gajo a pedir, até nem é muito complicado de resolver: geralmente emprego um “Ó pá, tu vai mas é pró carxxxx!!” e fica a coisa ali resolvida, sem ressentimentos. O problema é quando se trata de uma senhora.

Mesmo que se trate de uma jovem tristemente menos favorecida por Deus Nosso Senhor, convém ter algum cuidado a lidar com estas coisas, porque ela tem sempre uma irmã ou uma prima gira que pode ficar irremediavelmente alienada.  Posto isto, quando é uma menina a solicitá-lo, tento sempre declinar com uma desculpa diplomática, qualquer coisa do género “Epá, a-do-ra-va mesmo assinar a tua fita, mas não me dá jeito porque vou emigrar para o Mali depois de almoço”. Ainda assim, apesar da manisfesta qualidade das minhas desculpas, muitas vezes não me consigo safar.

Estranhamente, as pessoas inventam as desculpas mais estranhas para pedir a terceiros que preencham a fita, por exemplo, “Gostava muito que preenchesses uma fita, afinal de contas passámos juntos momentos muito bonitos, como aquele dia em que te encontrei no Continente e ficámos um quarto de hora na conversa enquanto a senhora me amanhava um pargo.” Muitas vezes as pessoas não têm quase nada em comum e mal se conhecem, tornando-se a tarefa particularmente espinhosa. Quando dá para levar a fita para casa, ainda se desenrasca qualquer coisa: vou ao Facebook e copio uma ou duas daquelas coisas parvas das “Frases sentidas”, que todas as miúdas adoram e comentam “Ah, é tão verdade…”. E está feito, apesar de dar uma trabalheira escrever  naquele cetim amaricado. Esta gente dedica-se a enviar um SMS diário a dizer “Não te esqueças de assinar a minha fita, olha que a bênção é já daqui a 6 meses!!”, pelo que é difícil esquecer a deadline de entrega. Já para aquelas pessoas por quem não tenho mesmo nenhuma consideração, mandei fazer um carimbo com os dizeres:  “Querida (espaço em branco), és uma pessoa muito importante para mim, desejo-te as maiores felicidades. Beijinhos do André”. Escrevo o nome à mão e está o problema resolvido.

Pior é quando aparecem  aquelas fitas que tenho de preencher no momento. Para contornar a situação desenvolvi duas técnicas infalíveis, a saber, a da expressão plástica e a da culinária. Em relação à expressão plástica, consiste em escrever “Felicidades + nome da pessoa” no topo e “Beijinhos do André” no rodapé. De permeio rabisco qualquer coisa que dê pouco trabalho, e se possível, demonstre pouca consideração pela pessoa, conforme exemplo em baixo.

Em relação à técnica da culinária, escrevo algo do género  “És muito fixe e gosto mesmo de ti. Olha, sabes, outra coisa que gosto muito é de bacalhau à Zé do Pipo, por isso aproveito e deixo-te aqui uma receita para 4 pessoas, que é uma coisa que dá sempre jeito. Então temos 1 lombo(s) de bacalhau,2 cebolas, 1 Lt leite, 4 colheres de  sopa de azeite (…)”. E por aí fora, com um beijinho no fim.


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Contradições

Estava eu a começar este post quando me dá a fome. Dirijo-me à cozinha e, ao abrir o armário, constato que não há nada para comer. “Eh pá, não consigo escrever de barriga vazia… Bem, vou ali ao Continente comprar umas bolachas e uns doces. De Metro é num instante, não devo demorar muito…”- penso eu.

Mal entro no Continente deparo-me com um livro de contos de Voltaire que ainda não tinha e que não hesitei em meter no cesto. Mais à frente, mas não muito longe, vejo uma promoção de DVD’S. Não me contive. Comprei o Taxi Driver, mas também mais dois filmes de que nunca ouvi falar, porque sempre ficam de reserva para dar de prenda de anos a algum primo ou tio. Dirigi-me então à secção de bolachas, mas pelo caminho compro um patê. Sei que nem sequer o vou abrir, pois não gosto, mas, também, um gajo nunca sabe quando é que tem visitas… Compro as bolachas que queria, mas trago também uns biscoitos novos, com sabor a framboesa. Tinham uma embalagem chamativa e um bom aspecto fotográfico, apesar de sempre ter achado a framboesa um pouco enjoativa.

Lembro-me também de trazer sumos, pois não tinha em casa. Não é que eu goste muito de sumos, mas li em qualquer lado que faz bem beber um copo ao pequeno-almoço. Dirigi-me para pagar, mas ainda na caixa comprei uma revista que nunca tinha visto, duas embalagens de pilhas (apesar de só usar pilhas recarregáveis), 3 caixas de pastilhas e uma embalagem de gilettes… Paguei uma conta algo elevada e voltei para casa.

Arrumo as compras, lancho e sento-me para acabar o que tinha deixado a meio. E é então que, nesse preciso momento, me deparo com o título do post que tinha começado a escrever antes de sair de casa para comprar comida: “MANIFESTO CONTRA A SOCIEDADE DE CONSUMO!”

Aaaaaah… merda para isto….


Orgulho para todos os gostos

Não posso dizer que sou exactamente um ás da mecânica. Na verdade, o meu talento nessa área equivale às minhas aptidões para o bricolage e trabalhos manuais, que estão ao nível de um orangotango que nunca tenha visto o “Querido mudei a casa”.

Sucede que tive recentemente que levar a caixa de fósforos ao mecânico. Sempre que lá vou tenho a preocupação de ensaiar em casa duas ou três frases de circunstância, qualquer coisa como “Aqui há tempos tive uma chatice com a bomba de óleo”, que procuro apresentar sempre com um ar entendido. A minha esperança é que consigo convencer o senhor que está perante alguém que percebe qualquer coisa do assunto, dissuadindo-o assim de se esticar muito nas doenças que encontra. O problema é que a frase sai-me sempre com a segurança e naturalidade com que uma mulher disserta sobre a lei do fora de jogo. Inevitavelmente lá tenho de ouvir a primeira frase do Juramento de Hipócrates dos mecânicos: “Pois é amigo, isto vai ser complicado.” Eu já parto do princípio que vou ser enganado, o que vai variar é o grau e a intensidade com que isso acontece. Faz-me confusão ouvir as pessoas usar a expressão “tenho um mecânico de confiança”, acho que é tão apropriado aplicar o termo “confiança” a um mecânico como a um traficante de droga ou um astrólogo africano. Ainda estou um bocado traumatizado da última vez que fui à oficina: tinha uma porta que não trancava e saí de lá com um acelerador de partículas e um detector de anti-matéria.

No entanto, apesar de tudo, posso dizer que tenho muito orgulho no meu carrinho e aguento bem as bocas do costume: “Epá, porque é que compraste só meio carro?”, “Ouve lá, isso é carro de gaja!!” ou “Caramba, como é que consegues ser tão lindo e sexy?”. O trivial. Na verdade, sinto uma espécie de orgulho paternal pelo carrito: anda sempre na bordinha do passeio e quando vou às compras prendo a jante com um cadeado ao poiso das bicicletas, com receio que um desses bisontes ucranianos o leve por engano junto com os sacos das compras. Ora, bem me lixei com a questão do orgulho:  além do paternal, tive de lidar com o orgulho gay.

Esta semana armei-me em homenzinho e lembrei-me de espreitar o nível do óleo. Como nunca tinha mexido naquilo e o motor, parecendo que não, é uma coisa que acaba por fazer sempre falta, resolvi primeiro fazer umas navegações sobre o assunto. O primeiro resultado de pesquisa que me aparece por “mudar óleo smart” é um link para o site PortugalGay.pt. “Oh diabo…”, pensei para comigo, “Isto começa bem.” Dei uma olhadela à primeira página de resultados e nenhuma delas aparentava ser de grande utilidade, pelo que resolvi arriscar. Lá carreguei no link com a espontaneidade com que o Gilberto Madaíl avia uma água natural ou um suminho de laranja. Pouca, portanto. Logo no topo, um banner com um anúncio a uma sauna LGBT. Ainda pensei que era tudo um equívoco lamentável e que “mudar o óleo” fosse alguma espécie de linguagem técnica sobre a qual eu não tinha a mínima vontade de obter esclarecimento. Mas não. Meia dúzia de fotos de rapazinhos em trajes menores depois, lá cheguei à parte do Smart. O primeiro link revelou-se um verdadeiro murro no estômago: “Porque é que o PortugalGay.PT tem uma secção sobre smarts?” Ai. Ora, para alguém que comprou o veículo na esperança que o ia ajudar a engatar miúdas, esta pergunta não era exactamente um bom presságio. Meio encolhido, aventurei-me a abrir a galeria de fotos das viaturas, sempre com receio de levar com um rapagão núbio olho adentro. Finalmente lá acabei por encontrar o tutorial explicando tudo e mais alguma coisa, impecavelmente arrumadinho, como não podia deixar de ser.


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