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I’m in love with a Political Star

passos-coelhoPronto, não há volta a dar, vou ter mesmo de o admitir: o Passos conquistou-me!

É verdade. Eu que durante meses o critiquei, hoje tenho de estar do seu lado. E porquê, pergunta o leitor a tresandar a sardinha com pimento e bedum de duas semanas? Porque, tal como todo o bom português, derreto-me quando vejo alguém com patologias graves a falar das suas conquistas.

Passos Coelho veio hoje dizer que se orgulha do trabalho do governo. Sinceramente, eu também. Não é todos os dias que vemos um autista preso no seu mundo de austeridade a conseguir bater o record de desemprego, a aumentar a dívida pública para números superiores a 117% do PIB, a proporcionar recuos na economia na base dos 4% por trimestre, aImagem Dia Mundial Trissomia 21 - Rafael levar milhares de pessoas a preferirem passar tardes em manifestações do que na praia ou com a família, a dar-nos pérolas como Miguel Relvas, Nuno Crato ou Vítor Gaspar, etc. Aliás, são tantas as vitórias do Passos que, para mim, já merecia aparecer num daqueles cartazes com os miúdos com Trissomia 21 a dizer “Acredita, eu consigo… acabar com Portugal”.

Passos sente orgulho no que fez pelo país e bem. Aliás, devia ter orgulho em mais coisas, como por exemplo naquilo que fez pela Tecnoforma, ou naquilo que fez por António Borges depois de este ter sido corrido da troika por falta de competências, ou mesmo naquilo que fez pela Parpública. Passos realmente fez muitas coisas de que se pode orgulhar. Infelizmente, correr a Maratona de Boston não foi uma delas.

E se ainda não estão convencidos, Passos conseguiu com que os portugueses sejam hoje vistos lá fora como “gente trabalhadora, cumpridora e honrada”. Estão a ver? Pois é, escravos deste gabarito não encontram em mais lado nenhum.

jsdAlém disso, Passos mostrou que é mais do que um primeiro-ministro brilhante, um profissional exemplar e um tenor de excepção, Passos é também um humanitário, uma alma caridosa, um amigo… principalmente para quem está na JSD. Com Passos vimos entrarem para cargos ligados ao governo perto de 4500 “boys” (sendo que alguns são “girls”, o que segundo consta não terá sido do agrado de alguns membros da coligação) e isto é de louvar, pois toda a gente sabe como está difícil aos jovens arranjarem trabalho, principalmente um daqueles trabalhos onde paguem perto de 3000 euros.

E é por isto que eu digo sem vergonha: Passos Coelho conquistou-me! E sinceramente estou bem mais feliz assim. É que se é para continuar a ser comido, mais vale estar apaixonado. Dói menos.
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História bem contada

Osvaldo sabia que da sua casa ao andar térreo eram 67 degraus, e dali ao café mais próximo eram 135 passos. Café Alvorada, 11 letras, um estabelecimento com 5 mesas e 17 cadeiras, propriedade da sra. Albertina, que tinha 5 pintas no rosto. Osvaldo não sabia quantas pintas a sra. Albertina tinha no resto do corpo, o que o deixava muito perturbado.

Osvaldo sabia que tinha Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

A sua mania de contar havia tornado sua vida insuportável. Já não conseguia trabalhar, comer, dormir. Mas tudo mudou quando conheceu Martim.

Martim um dia viu Osvaldo no Rossio, a contar as pedras da calçada. Osvaldo já estava lá havia três dias, a roupa já suja, a barba por fazer. As pessoas pensavam que era um mendigo, atiravam-lhe tostões que ele nem se dava ao trabalho de contar. “Contar tostões é para principiantes”, pensava ele. “Contar as pedras da calçada do Rossio, isso é que é!” Mas ao cabo de três dias Osvaldo já estava desesperadinho porque estava a ver que não ia conseguir. Passaram na sua frente as pernas duma gaja boa, Osvaldo perdeu a conta, sentou-se e começou a chorar.

Foi quando Martim teve pena dele, aproximou-se e disse: “Tás a contar as pedras, estás?” E antes mesmo de Osvaldo responder qualquer coisa, Martim logo disse: “São dois milhões, oitocentos e cinquenta e quatro mil, setecentos e vinte e cinco pedras. As brancas. As pretas são dois milhões, duzentos e sete mil, setecentos e cinquenta e seis.”

Martim contou-as em minutos. Martim é autista. Daqueles que são máquinas de calcular em forma de gente. Desde esse dia, Osvaldo e Martim são inseparáveis. Martim conta tudo para Osvaldo. E Osvaldo faz todo o resto para Martim, porque este é um génio dos mais idiotas que há. Toda vez que ouve dizerem que chove a cântaros, Martim olha para o céu à procura deles. Se lhe falam para ir num pé e vir no outro, ele vai a saltar ao pé-coxinho direito e volta a saltar ao pé-coxinho esquerdo. No dia em que conheceu Osvaldo no Rossio, Martim estava a caminho do metro. Ia ao zoológico porque tinham-lhe mandado ir pentear macacos.

Hoje é um grande dia para Osvaldo, que finalmente vai saber quantas pétalas há no arbusto de hortênsias em frente ao café da sra. Albertina. Martim vai contar as pétalas para ele, claro, e Osvaldo, só de maldade, vai dizer ao Martim que ele consegue fazer isso com uma perna nas costas.


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