Author Archives: João Veiga²

O Implacável

Autor: João Veiga²
Participaram: Diogo Vilhena, Celso Moura

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monumentais plágios

Uma das características dos seres humanos é a originalidade. Outra característica dos seres humanos é a falta dela.  A primeira, associada ao sentimento de homenagem, representação de valores e/ou utilidade, dá origem a monumentos; a segunda, associada ao sentimento de homenagem, representação de valores e/ou utilidade, dá origem a plágios monumentais. É uma constatação: por todo o mundo existem monumentos que são cópias chapadas – ou cópias que só à chapada – de edificações já existentes noutros lugares.

Basta olhar para a margem sul. O que é o Cristo Rei senão um tele-transporte do redentor do Corcovado? Só numa coisa diferem: o “nosso” tem significado político, ou acham que foi por acaso que Salazar e Cerejeira puseram o Senhor de costas para os comunistas? O que é certo, é que temos de lidar diariamente com uma cópia do nazareno em betão armado, que pela localização escolhida, mais parece uma ave de rapina à caça de portageiros ou um sinaleiro a jogar ao macaquinho de chinês.

Por falar nisso, outro exemplo gritante é a Ponte 25 de Abril, que não sendo propriamente um monumento – chamar monumento a uma edificação onde todos passam contrariados e que é utilizada amiúde como suicidódromo, seria de mau gosto -, representa mais um caso de pouca originalidade construtiva, pois trata-se de uma cópia da mítica Golden Gate Bridge. Se viam o Agora Escolha, sabem que esta ponte serviu de cenário para o genérico da clássica série policial Streets of San Francisco. E agora reparem que nós, não contentes em copiar o design da coisa propriamente dita, tratámos também de improvisar um genérico de uma série policial com a ponte como cenário – só que em vez de um charmoso detective Keller a assapar num Blue Maverick, tínhamos o Tó (o homem que achava bonito alinhar o bico da gravata pelo duodeno) num 2 Cavalos com vontade própria.

Saindo de Lisboa – ou nem tanto: na cidade do Mindelo, em Cabo Verde, há um edifício que consta ser uma réplica da Torre de Belém. O que vos posso dizer sobre isto: se adoptarmos este conceito de “réplica” como único e verdadeiro, eu poderei ser considerado um clone do Brad Pitt. Mais não digo.

E nem a estátua da Liberdade escapa. Oferecida em nome da França aos EUA por um senhor chamado Napoleão III (curioso nome para quem oferece uma estátua que representa a liberdade), esta senhora, famosa por gostar de apanhar vento na axila direita, tem uma irmã gémea atarracada a morar em Paris. Parece-me que faria mais sentido que, em vez de terem feito uma fotocópia ampliada para oferecer aos EUA, tivessem tido a preocupação de fazer uma estátua da Fraternidade e outra da Igualdade para pôr ao lado da da Liberdade – e hoje teríamos uma troika exemplar para tomar como modelo, porque apesar de tudo, há coisas que vale a pena plagiar.


Qualquer dia nem o Manjerico é amigo de Gaspar


Armando Victor, o comentador eloquente, está de volta


As maçãs do Steve

Steve Jobs (1955/2011): o homem que percebeu que os adultos também querem brinquedos – que não daqueles que o “empresário do norte” e a mulher levam na mala quando vão ter com os amigos bizarros aos hotéis de 5 estrelas.

A raça humana gosta de ser entretida, de interagir, de usufruir das coisas que os outros humanos fazem – livros, música, filmes, filmes caseiros – e Jobs achou que enfiando todas essas coisas dentro de gadgets estilosos e estampando-lhes uma maçã mordida, parte da humanidade seria mais feliz. E acertou, pelo menos a julgar pelas suas classificações na lista de ricalhaços da revista Forbes – e pelo sorriso pateta de alguns a passear de iPod à beira-mar. De alguns, sublinho, porque as maçãs do Steve não são para qualquer um: um “qualquer um” tem que se contentar com as de Alcobaça.

Se não ganhou o prémio Nobel do Marketing, é porque tal coisa não existe. E se não ganhou o prémio “Humanos, vejam de uma vez por todas o que deve ser o design”- simples, conciso e belo – é porque nunca ninguém se lembrou de criar um prémio com um nome tão estúpido. Mas o que é facto é que o design da Apple é um guia estético, e de tal forma considerado, que conheço alguns maníacos cujo maior sonho era levar uma dentada do Steve Jobs na maçã de Adão, achando que assim ficariam mais bonitos.

Mas Jobs deixou-nos, e como tal, há que permitir que o trabalho por ele iniciado seja continuado e desenvolvido por outros génios – porque a raça humana gosta de ser entretida -, e, em conformidade com isto, deixo aqui algumas geniais propostas de gadgets para a Apple desenvolver:

iPo: gadget agrícola, uma espécie de borda d’água do século XXI;

iCredo: descodificador de discursos do papa para não-crentes, agnósticos e ateus;

iAtola: assim uma espécie de Magalhães do Irão, mas com funcionalidades atómicas;

iVeca: deputado virtual não remunerado e não demagógico que cada cidadão traria sempre consigo (tipo anjo da guarda).

Parece que já estou a ver as filas enormes no lançamento destas obras-primas da tecnologia e do design- e as mais do que previsíveis devoluções subsequentes.

Se a Apple não aproveitar estas ideias, sei quem as vai aproveitar; iSei sei. Agora desculpem-me, tenho que atender uma chamada no meu iPhone. É o Bill.

 (escrito num macbook pro que pifa como os outros portáteis mas é mais bonito)


Nevermind (deixa lá isso)

Faz vinte anos que os Nirvana lançaram o álbum Nevermind, considerado por muitos uma autêntica pedrada no charco da cena musical da época. Na verdade, para a geração sem nome – a que nasceu entalada entre a “rasca” e a “à rasca” e que por acaso é a minha – este lançamento foi muito mais do que uma pedrada no charco: foi uma pedrada no carro do director de turma,  nos vidros do pavilhão de educação física e, acima de tudo, uma data de pedradas daquelas que fazem rir e dão fome.

Do nada, um gajo mal vestido que nem sequer usava sapatos de vela e tinha um corte de cabelo semelhante ao das professoras de matemática – só que oleoso, despenteado e a cair para a frente da cara – berrou-nos aos ouvidos “deixa lá isso” (tradução livre de nevermind)  e aquilo fez sentido. Além de que o cabelo grande, desgrenhado e oleoso, dava imenso jeito para disfarçar o acne. E as camisas de flanela à lenhador de Seattle eram bem quentinhas.

A capa do disco tinha uma fotografia de uma criancinha nua dentro de um piscina a tentar apanhar uma nota de dólar. Como os tempos mudaram: nessa altura podia-se pôr numa capa fotografias de criancinhas nuas a nadar e estragar notas de dólar. Hoje em dia seria imoral, gasto de água e despesismo.

Além do visual e da música, o teledisco de Smells Like Teen Spirit foi também imediatamente classificado ao mais alto nível: tótil. Neste teledisco, além de cheerleaders com um “A” de Anarquia no seio esquerdo – que na altura acreditávamos significar “apalpa-me”-, um grupo de adolescentes irrequietos desata numa mosh desenfreada. De facto nada melhor para ilustrar o título da canção: de sovaco a feromonas; de gorilas de mentol a ganza, pelos cheiros emanados de uma mosh, consegue-se perfeitamente sintetizar o que é o espírito teen.

Indiscutivelmente, o sucesso desta banda deve-se a Cobain, um grunge homem que neste caso não tinha atrás de si uma grunge mulher: tinha sim uma gaja que para além de ter nome de actriz porno, tudo o mais nela é irrelevante. Mas por sorte tinha um grunge’a baterista (!) – tão bom tão bom que há quem lhe chame Santo Grohl – e um baixista. E chegava.

E agora de repente deu-me saudades do tempo em que mosh não era um tarifário e a palavra tótil não feria os ouvidos. E em que o Duarte Lima era apenas um mero presidente de um grupo parlamentar. “Deixa lá isso”.


Maximino Candeias

Maximino Candeias foi um cantor de intervenção preso pela PIDE em 1969 e imediatamente enviado para o Tarrafal, de onde viria a fugir a nado em 1972, julga-se que para o arquipélago de Bijagós.

Gravou o single “Desde que o povo não desista” numa cave da Avenida de Paris cujas cópias foram apreendidas pela PIDE e posteriormente destruídas à dentada pelo próprio Silva Pais. Apenas sobrou um exemplar que Candeias escondeu junto aos genitais e que Silva Pais detectou, mas absteve-se de morder por razões óbvias.

Este exemplar, por voltas que só ele saberá, foi parar à feira da ladra onde foi por mim adquirido junto ao senhor que vende torneiras. Diz-se que nesta gravação é o Zeca que faz coros e o Zé Mário que toca pandeireta. No djambé há quem jure identificar o modo de tocar do sobrinho-neto do Ngungunhane, cujo nome é impronunciável.

De Maximino Candeias, uns dizem que trafica marfim no Senegal, outros que mora na Albânia ainda crente nos ideais que o levaram à reclusão. A mim não me sai da cabeça que é o senhor das torneiras.


ossos do ofício

Proença-a-Nova, 31 de Agosto de 2011

Esta crónica vai ser curta. Por duas boas razões: estou de férias e estou de baixa. Ou melhor, o meu ombro direito está de baixa (agora experimentem teclar uma crónica só com a mão esquerda, a ver se conseguem…).

Explico: na semana passada desloquei-me em trabalho a uma zona de praia, mas o meu ombro direito é garganeiro e quis deslocar-se mais do que eu. Decidiu boicotar uma “carreirinha” e saltar fora do sítio. Um ombro sem hombridade, é o que é.

Alguém me viu de braço ao peito e disse “são ossos do ofício”. Eu corrigi “são ossos deslocados do ofício”, sabendo na verdade tratar-se de uma estupidez sem limite, já que foi a segunda vez na vida que deixei uma “carreirinha” enrolar-me e mandar o meu braço direito para fora de pé (e dói como o raio!).

E agora, a parte do texto em que vão dizer “é bem feita”. Isto aconteceu em Cabo Verde. Mar azul-turquesa, transparente e quente. Roam-se.

Pena que o mar de Cabo Verde desconheça o conceito de “morabeza”.

E vai mais um “voltaren” pela goela abaixo. As melhoras, e boas férias.


o multiculturalista

por João Veiga² com Celso Moura e Amílcar Monteiro (Aristocratas) e Bruce Banner (civil)


Memórias de Barcelona

Tenho saudades do tempo em que ir para fora cá dentro era uma espécie de opção e não apenas uma contingência orçamental. Sobram as memórias dos anos felizes em que durante o mês de Agosto conseguia pôr um pezinho no estrangeiro.

Numa dessas idas para fora lá fora – que, deixem-se de tretas, são as verdadeiras idas para fora – fui a Barcelona. Em Barcelona é tudo muito giro, mas o mais giro de tudo é poder ter a oportunidade de subir às torres da Sagrada Família nas condições em que eu o fiz.

A minha experiência na Sagrada Família não foi em família, e não se pode considerar que tenha sido propriamente sagrada. Mas lá que teve algo de celeste teve (para ser preciso: azul-celeste), e, de determinado ponto de vista (o do “gajo básico”), de sorte.

Quis Deus que na sua casa catalã, a subir a escadaria da torre, e para meu “Gaudí(o)” (não resisti ao trocadilho), tivesse à minha frente uma italiana boazona e incauta trajando curtíssima mini-saia ondulante que, simpaticamente, insistia em ofertar ao turista que seguia atrás (eu próprio), avistamentos repetidos das suas cuecas extremamente anatómicas de cor azul-celeste.

Era tanta a graciosidade e celestialidade, e ainda para mais estando numa catedral, que ao início ainda pensei poder tratar-se de um anjo, mas degrau a degrau (foram cerca de 80),  tive oportunidade de confirmar e reconfirmar que tinha sexo – afortunadamente aquele que não possuo – e logo concluí que era apenas uma gaja boa cuja intimidade estava a palmos dos meus olhos. Palmos de anão, diga-se. Italiana, repito. E será escusado relembrar aqui a qualidade do design italiano, quer ao nível da moda íntima, quer ao nível da genética humana.

Não me interpretem mal: não sou praticante de voyerismo, e juro que não me ocorreu tirar uma fotografia com o telemóvel (nessa altura os telemóveis não tiravam fotografias); nem sou nenhum tarado, porque se fosse escreveria um texto estúpido sobre este acontecimento, mas por favor, quando subo a uma torre, gosto de olhar para cima muitas e muitas vezes para ver se ainda falta muito para chegar. E se quando o faço tenho à frente o jardim da azul-celeste, giroflé, giroflá, isso não faz de mim uma pessoa pior, mas apenas um voyer involuntário e um homem mais feliz.

Sei que para algumas pessoas poderemos estar perante um acontecimento pecaminoso, pois estamos a falar de erotismo numa catedral, mas quem já esteve na Sagrada Família sabe que aquilo é mais um estaleiro de obras do que uma casa do senhor. E nesse sentido, eu não só fiz bem em aproveitar a vista, como era admissível ter mandado umas piropadas de andaime bem badalhocas.

Conselho para quem possa fugir às férias cá dentro: vão a Barcelona e subam às torres da Sagrada Família. A vista é inesquecível – giroflé, giroflá.


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