Author Archives: Celso Moura

Piadas respeitosas sobre a tua mãe

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A tua mãe é tão saudável que o seu índice de massa corporal deverá ser o ideal para uma mulher da sua idade.

A tua mãe é tão respeitada dentro da sua profissão que aposto que será promovida e aumentada ainda este ano, apesar da trajectória descendente da economia.

A tua mãe percebe tanto de Internet que deveria criar a sua própria rede social, só para mães. Seria muito popular.

A tua mãe é tão culta que se daria bem a dar aulas de literatura em qualquer universidade.

A tua mãe é tão cuidada em ouvir os outros que faz-nos sentir que coloca tudo de lado só para nos ouvir. Esse é um traço mesmo muito bom de se ter.

A tua mãe joga tão bem basquetebol, que poderia jogar no Algés. Bastava querer.

A tua mãe apoia-te tanto que não me espantaria se, como resultado, te tornasses incrivelmente bem sucedido.

A tua mãe cozinha tão bem que deveria abrir o seu próprio restaurante. Eu seria o primeiro cliente.


Pessoal, temo que o Rui Cruz não passa de uma carapaça humana, cheia de milhares e milhares de aranhas

Putos, sei que isto vai soar um bocado fora. Para ser sincero, até eu estou relutante em dizê-lo em voz alta. Mas já ando a pensar nisto há algum tempo e, bom, não consigo afastar a ideia de que o nosso amigo Rui Cruz não passa de um monte de aranhas a viver dentro de uma carapaça humana altamente realista, a qual operam como se de um fantoche se tratasse.

Pronto. Já estou a ver as vossas caras, sei que isto parece uma ideia forçada. Filipa, és casada com ele e nem consigo imaginar o quão difícil será ser confrontada com esta ideia. De qualquer forma, o Rui Cruz é muito importante para nós e acho que devemos, no mínimo, encarar com seriedade e honestidade o facto de ele ser um saco vazio feito em pele, controlado por milhares de aranhas em fúria.

Se tenho provas? Tenho e não tenho. Sabem aquelas vezes em que se sentem vigiados? Não sabem como ou porquê, mas sabem? Bom, o que sinto é tipo isso, só que neste caso é sobre o Rui Cruz ser uma casa de aranhas em forma de ser humano. Em vez de pulmões: aranhas. Em vez de rins: aranhas. Em vez dos seus genitais – Filipa, por favor, deixa-me acabar – muitas e muitas aranhas.

É óbvio que há uma série de questões às quais não tenho resposta. Que tipo de aranhas serão? Eu não sei. Serão mesothelae – asiáticas, mygalomorphae – grandes, pretas e peludas ou as comuns araneomorphae? Se pensarem bem, até há a hipótese de existir uma variedade parva de aranhas dentro do Rui Cruz, trabalhando em conjunto num esforço inter-espécies.

Outra dúvida: como é que as aranhas conseguem possuir um fato humano assim tão realista? Também para isto, não consigo resposta, mas é difícil imaginar que o tenham construído por elas próprias.  O meu melhor palpite é que o “fato Rui Cruz” foi adquirido a um místico, em troca de insectos mortos, galhos, ou – Filipa, se não paras de gritar, vou ter de te pedir para sair. Estamos a ter uma discussão científica e não há lugar para gritos na ciência.

Finalmente: vou abordar o óbvio. Sim, é verdade que, no passado, os meus palpites foram todos ao lado. Por exemplo, Rafa, daquela vez em que achei que eras uma marioneta humana controlada por gafanhotos. Ou, André Silva, quando te julguei uma marioneta humana controlada por vespas. Ou, Cláudio Almeida, daquela vez em achei que ias abrir uma loja de iogurtes. E, mais tarde, quando julguei que eras uma marioneta controlada por formigas de fogo. Eu sei que estava errado e lamento-o, juro que sim. Ainda assim, no que toca a identificar insectos a habitar pseudo-pessoas, é melhor prevenir que remediar.

Gostaria agora de abrir o círculo a perguntas. No entanto, tenham em mente o seguinte: se discordarem de mim, é porque muito provavelmente estarão recheados de bichos.


O Bordel de Marionetas

Bem-vindo ao Bordel de Marionetas, uma novidade na indústria do entretenimento adulto. Os membros da nossa equipa estão à sua disposição para servir homens e mulheres de uma forma original e divertida, com marionetas realmente assustadoras. Embora hajam muitas empresas que cuidem da satisfação sexual, nós somos a única a trabalhar no campo da prostituição com marionetas, tanto quanto sabemos.

A Nossa Missão

É possível que os seus amigos considerem bizarra, e talvez nojenta, a vontade de um adulto em obter prazer junto de um boneco com proporções humanas. Esperamos mudar a visão da sociedade em relação à cópula-marionetista e revolucionar a indústria do sexo ao longo do processo. Quantas vezes você já visitou o seu bordel local, apenas para descobrir que contraiu uma doença sexualmente transmissível, destruidora do seu sistema imunológico e casamento? No Bordel de Marionetas, cada marioneta é lavada com água quente, encerado e lavado a seco antes de voltar às nossas mãos.

É Traição?

Estará a desonrar o seu casamento, desflorando de prazer um boneco ligado por fios aos braços de dois estranhos? Pois, nós também achamos que não.

Adultério Ético

Sempre que um consumidor tem sexo com uma das nossas marionetas, nós doamos 1€ à Associação Municipal de Marionetistas. Entendemos o quão monogamicamente imaginativo o sexo se pode tornar. Oferecemos um vasto leque de marionetas prostitutas para ambos os sexos e encorajamos maridos e mulheres a realizarem uma visita juntos. Estudos provam que as esposas são condescendentes com os maridos que visitam o Bordel de Marionetas, bem mais do que para com os que visitam as tradicionais casas de putas. Mas não siga apenas a nossa palavra – pergunte ao seu / sua parceiro (a) se ele ou ela preferiria que você se envolvesse sexualmente com um humano sujo e desinteressante, ou com um pinguim antropomórfico, excêntrico e inanimado.

Como funciona?

Você escolhe a marioneta e o preço, depois deita-se enquanto os nossos chulos marionetistas fazem magia. Fantoches, meias com olhos, marionetas, sombras chinesas ou comboios com cabeças na ponta, se for isso que o excita. Já fantasiou com um menáge-a-marioneta entre um dragão e um monstro de seis braços? Nós tornamo-lo realidade. Os nossos chulos são treinados para se camuflarem no décor, como ninjas ou marionetistas de sucesso. Se a nossa presença for perceptível, oferecemos uma massagem de marioneta de dedo totalmente grátis. (Oferta válida para uma marioneta de dedo apenas; mais taxas aplicadas se a marioneta for manchada durante a massagem).

É Legal?

Não temos a certeza. De momento, não há nenhuma lei que proíba os estabelecimentos comerciais de oferecer sexo com marionetas em troca de dinheiro ou comida, de acordo com a Wikipédia.

Preços

Faça-nos uma oferta. Alugamos as nossas marionetas por uma hora, ofertas especiais poderão requerer depósitos reembolsáveis.

Gorjeta

Isso é entre você e a marioneta. No final da sessão, os marionetistas sairão do quarto, deixando a marioneta na cama para que você se possa despedir. No caso de se sentir agradecido, relaxado ou culpado, vá em frente e deixe alguns euros numa das mãos inanimadas.


Comecei a beber café e estou a adorar

Isto é muita bom! Tenho 27 anos! Sempre ignorei o café, pensando, “Para quê ter um mau vício?” Mas isto é um vício muita bom! Faço muito mais numa hora do que costumava fazer numa só semana. Café! Comprei uma máquina de café. Faz-me o café pela manhã! Abro os olhos e PAU, está lá, feito. Consigo ver! A diferença entre chá e café é a de um cacilheiro para um foguete. Onde é que eles estão, já agora? No Cabo Canaveral? Vamos lá! O café alimenta-me a criatividade. Consigo criar algo novo assim do nada. “O Amílcar ri como um lunático lavítico!” Viram? Foi instantâneo! O que quer dizer “lavítico”? Inventei. Não importa! Café! Vou transformá-la numa palavra a sério. Quer dizer gradualmente ameaçador. Usa-a! Ei, se calhar vou experimentar teatro de improvisação. Aposto que faço muita bem sob o efeito do café. Sim… Sim! Inscreve-me! Porque é que não pensei nisto no secundário? Aposto que ainda acabava a ensinar o grupo de teatro e tudo. Chega-te para lá, Sr. Camisola de gola alta! Lê os meus lábios: eu vou ensinar o grupo de teatro a fazer teatro. Baunilha Francesa! Sabe a quê? Deve ser delicioso! Dá-me uma beca. Açúcar? Não preciso. Convido rapazes para tomar café. Falo durante o tempo todo! Costumava ser tão tímido! Sexo! Ontem, telefonei para o meu banco para me queixar das taxas! Ofereceram-me um reembolso! Agora já sei que vale a pena queixar-me. Como é que é fumar? Alivia mesmo o stress? Estou a pensar em viciar-me em cigarros. Vou comprar um maço e treinar já a partir do dia de hoje! Agora já percebo porque é que estas coisas são tão populares. A sério. Não é sátira. Tenho ainda muita actualização de vícios para fazer. Pergunto-me onde é que estaria hoje se já bebesse café há mais tempo? Não importa, eu vivo no agora, agora! Tenho de ir à casa de banho! Talvez tivesse inventado a Internet! Puto, acreditas mesmo? Costumava pensar em formas de comunicarmos uns com os outros, através de computadores, ainda antes de o começarmos a fazer. Mas aí está a diferença. Costumava pensar nas coisas. Agora faço-as! É melhor começar a trabalhar no meu retérmico, antes que alguém o faça. Retérmico – é tipo um frigorífico, mas mantém a comida à mesma temperatura com que foi colocada lá. O quente mantém-se quente! O frio mantém-se frio! Põe lá uma pizza a escaldar e mantém-se escaldante! Todos ao mesmo tempo! Re-tér-mi-co! Café gelado! Ainda não experimentei. Nem consigo imaginar. Podes beber café no verão! Voleibol!

“Quando a vida te dá limões, faz café… e então terás o desejo de fazer limonada.”

Celso Moura, 2012


Já percebi que aquilo não é um unicórnio, Rafa.

– Rafa, desta vez estou a falar a sério. Pára lá com isso. Da primeira vez, teve piada, enganaste-me bem enganadinho, admito. Estava 99% certo de que era um unicórnio a sério, até ao momento em que arrancaste o corno e desataste a rir. Como é que eu haveria de saber o que é um unicórnio verdadeiro? É uma criatura mitológica e eu não sou nenhum especialista em mitologia, ando a estudar para ser dentista.

No entanto, isto deixa-me perturbado – estou a olhar para o horizonte e diabos me levem se aquilo não é um unicórnio. Olha para ali. Estás a ver a silhueta recortada pelo pôr-do-sol… Aquilo é o corpo de um cavalo e o corno de um unicórnio. Tem de ser um unicórnio! Argh, porque é que não trouxe a minha máquina fotográfica hoje? Tive de deixar a bateria a carregar, depois de ter ido tirar fotos àquele torneio de mini-golf para caridade, para o meu blogue. Isto é bem mais valioso do que centenas de fotos de mini-golf, mas como é que eu haveria de saber isso antes.

Oi, está a vir para aqui? Não olhes para ele, não estabeleças contacto visual. Se estes unicórnios forem como os lobos, podem ficar intimidados com o contacto visual e entendê-lo como um sinal de agressão. Hm, ainda não tinha pensado na possível ligação lobo-unicórnio. Os unicórnios podem bem mais perigosos do que aquilo que parecem, tal como os lobos. Não. Não penses assim. Não olhes para ele.

Oh não, ele está a relinchar. Estou a ouvi-lo e

Espera um minuto. Os unicórnios não relincham. Os cavalos, sim! Aquilo é um rolo de papel higiénico achatado na ponta. Foi isso que puseste na cabeça do cavalo? Oh Rafa, outra vez? Filha d.. Não, ok. Enganaste-me, outra vez. Aquilo é outro cavalo, não é? Mas onde é que vais buscar tanto cavalo?

Bom para ti. Já gozaste o prato, campeão, podes parar agora. Fui idiota uma vez, fui idiota outra vez. Gostava mesmo era que me dissesses onde vais buscar estes cavalos todos, que é a única coisa que não consigo perceber. Tu vives na cidade, pá. Vou-te dizer o que me enganou desta vez – foi pores o cavalo virado para o pôr-do-sol, a esta distância. É muito difícil perceber o que é real ou falso quando a silhueta é recortada por um pôr-do-sol tão espectacular.

Para ser honesto, ainda bem que não tenho a máquina fotográfica comigo. A não ser… hmm. Quanto mais olho para ele, mais me apercebo do quão bonito é o cavalo. E isso já seria o suficiente para dar uma grande foto. Fónix, agora gostava de ter a máquina comigo outra vez. Quando é que vou poder fotografar um cavalo outra vez, percebes?

A sério, Rafa, onde é que andas a ir aos cavalos, é qu – PUTO, AQUILO É UM UNICÓRNIO A PUXAR UMA CARROÇA?!


Como colocar um soutien de desporto

  1. Aproxime-se do soutien de desporto com a segurança e confiança de que você irá colocá-lo.
  2. Segure o soutien de desporto, mire-o bem e encontre a abertura central, no centro da cavidade. É este o seu alvo.
  3. Pare por um momento e coloque as seguintes questões:
    1. Estou sem roupa da cintura para cima?
    2. Tirei os óculos?

Se a resposta a ambas é “não”, faça os ajustamentos necessários e regresse ao ponto 1.

  1. Enfie o braço direito pela abertura do lado direito. Faça o mesmo para o braço esquerdo e abertura do lado esquerdo.
  2. Assuma uma posição de equilibrio: pés à largura dos ombros e os joelhos levemente flectidos. Segure com os polegares na parte inferior do soutien de desporto e afaste-a de si, tanto quanto possível. (Nota: não o largue.)
  3. Com um gesto hábil, coloque o soutien por cima na cabeça e permita que desça, com um gesto firme.
  4. Nesta altura, deverá ter os braços apontados para o céu e os bíceps colados às orelhas. O soutien de desporto deverá rodear o seu corpo ao nível do queixo.
  5. Mantenha a calma. Visualize-se com o soutien de desporto vestido, a realizar uma qualquer actividade agradável.
  6. Cruze os braços em frente à sua cara, segure na parte inferior do soutien e comece a puxá-lo em direcção ao seu peito. Este processo poderá durar entre 5 a 25 minutos e poderá ser simplificado através da remoção de um dos braços (apenas para praticantes avançados de ioga).
  7. Se seguiu os passos 1-6 correctamente, o soutien desportivo estará, neste momento, colado ao seu peito, comprimindo os seios a ponto de ver a pulsação das veias.
  8. Regresse à posição de equilíbrio (veja passo 5). Segure firme na parte inferior do soutien de desporto e puxe-o para baixo, em arco, até chegar aos seus joelhos. Depois largue, com coragem. Se souber artes marciais, este será um bom momento para gritar yaaa.
  9. Assim que o elástico inferior alcance a zona torácica, ajeite-o. Mergulhe a mão no soutien desportivo para distribuir e alinhar o seu conteúdo, que deverá incluir os seus dois seios.

Nota: Se não conseguir localizar os seus dois (2) seios dentro do soutien desportivo, não se assuste, pois estarão seguramente por perto. Retire o soutien desportivo (ver “Como Tirar o Soutien Desportivo”) e volte ao passo 1 destas instruções.


Cenas curtas de natureza existencial (e respectiva análise), representadas por um pequeno grupo de teatro experimental

Cena 1: La vida, la muerte

Duas mulheres estão sentadas a uma mesa redonda. Uma olha para uma caneca de cappuccino, as suas mãos estão cruzadas na tentativa vã de chegar a uma sensação de bem-estar. Afasta as mãos da caneca e, subitamente, coloca-as em cima da mesa, com as palmas viradas para cima. A outra mulher arrebata o próprio corpo e esmaga-o contra o chão.

Esta cena representa a crueldade da vida e a natureza contraditória da relação feminina.

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Cena 2: Cabeza de Dios

Dois homens estão sentados num sofá safado. Fitam um espaço vazio da mesma forma que uma pessoa comum assiste televisão. De repente, um aproxima-se do outro e beija-o na testa. Regressa à posição anterior, enquanto o outro sorri e afaga a própria testa, maravilhado.

Esta cena representa a ternura que jaz sobre a amizade estóica existente entre homens.

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Cena 3: La Permanente (Les enfants! Les enfants!)

Duas crianças, bastante queridas, estão sentadas no chão. Com uma caneta de tinta permanente preta, uma das crianças desenha num papel rosado. A outra criança, que é muito atraente, não tira os olhos do papel supracitado. Esta criança, a atraente, olha para o lado. A menos atraente aproveita a oportunidade para rabiscar no papel. A mais fofinha olha então para o papel e chora de horror. A menos fofinha segura o papel ameaçadoramente, revelando à audiência a palavra que escreveu no papel – “vaca”.

Esta cena representa a rápida formação e atribuição de papéis, explora o aspecto sedutor das crianças e faz a pergunta: Como é que as crianças conseguem ser tão más e assustadoras?

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Cena 4: Ballet avec banana

As duas mulheres da primeira cena estão novamente sentadas a uma mesa, só que desta vez encontram-se vestidas de bailarinas. Ao invés de segurar uma caneca de cappuccino, a primeira mulher descasca uma banana, olhando-a tristemente. Pousa-a e começa a chorar. A segunda mulher pega na banana, descasca-a num gesto brutal, dá uma dentada violenta e cospe-a no chão. Assim que o cuspo embate no solo, a primeira mulher pára de chorar e solta risos histéricos.

Esta cena representa os sentimentos conflituosos que muitas mulheres têm em relação às bananas.

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Cena 5: La vida cappuccino

Dois homens estão sentados a uma mesa. Um chora, o outro ri. Uma caneca de cappuccino encontra-se no centro da mesa, intocável.

Esta cena representa o desamparo que muitos homens sentem quando confrontados com o cappuccino.

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Cena 6: El amor de las bananas (pour les enfants)

As duas crianças estão de volta, desta vez sentadas no sofá safado. Uma delas veste um cartaz rosa onde se lê “vaca”, enquanto a outra come uma banana. Assim que acaba de mastigar a banana, a criança inclina-se e beija a “vaca”. Esta nada faz.

Esta cena representa o amor sincero entre crianças e bananas, mesmo quando as crianças estão confusas acerca do que sentem uma pela outra.

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Cena 7: Finale (Les enfants sont l’avenir)

Dois homens estão sentados a uma mesa. Um deles bebe cappuccino, estando vestido de bailarina. O outro canta para uma casca de banana estendida no chão. Subitamente, o homem-bailarina pega na caneca de capuccino e agita-a na direcção do homem-banana. O homem-banana cai, levando o homem-bailarina a dançar à sua volta, de um jeito doce, mas seguido de gestos símios. Depois de várias piruetas e grunhidos, escorrega na casca de banana e cai, ficando ao lado do homem-banana.

As duas crianças entram e sentam-se em cima dos homens. Começam a cantar “Edelweiss” do filme Música no Coração. Uma das crianças chora, a outra ri.

As duas mulheres entram em cena. Uma delas tem o cartaz de “vaca” vestido. A outra puxa o sofá safado. Ambas trazem vassouras consigo e começam a varrer. A mulher que não carrega o sofá pega na casca de banana e, cheia de curiosidade, coloca-a na cabeça. A outra pousa finalmente o sofá. O sofá é então esquecido. O chão está limpo, as mulheres dirigem-se aos homens e às crianças. No então, as vassouras não são fortes o suficiente para varrê-los para fora de palco. Frustradas, as mulheres param de varrer. Passam então a galopar, fingindo que as vassouras são cavalos e as crianças logo se juntam , gritando, o que leva a que os homens acordem e se juntem também à confusão. No pico da diversão, toda a gente congela no seu lugar, olhando para o espaço vazio da mesma forma que uma pessoa comum assiste televisão. Permanecem imóveis, enquanto confettis rosa caem do céu. As luzes apagam-se, deixando uma spotlight no sofá safado.

Finis


A Marvel Comics anulou o meu contracto

Caro Sr. Celso,

Na Marvel Comics, procuramos ansiosamente novos super-heróis. Talvez seja essa a razão que nos tenha levado a oferecer-lhe, de forma precipitada, um contracto para o desenvolvimento de uma série de banda desenhada , depois de ver alguns deslumbrantes esboços do seu personagem, o Capitão Crochê. Infelizmente, depois de analisar a história que escreveu, a decisão legal – para além de ética – passará sempre por anular o contracto com efeitos imediatos.

A questão central é o superpoder do Capitão Crochê. O Celso define-o como “um vigilante que combate o crime, sobretudo adequado a jovens adultos”.  No entanto, não conseguimos ver mais do que um misantropo desviante, cuja capacidade de costura é utilizada para o insensível fim de coser os ânus dos seus inimigos enquanto dormem. Isto leva-nos a perguntar, que idade tem, 8 anos? Ou isso, ou o Celso será o Marquês de Sade da banda desenhada. Algo que não sabemos, nem queremos saber.

De novo, não podemos deixar de enfatizar o quão visualmente estimulantes são as sequências de acção das suas ilustrações. Se alguma dessas imagens nos tivesse dado a entender que o único poder do Capitão Crochê era selar o intestino dos vilões, cujo corpo acabaria por acumular excremento e explodir, não estaríamos sequer a comunicar agora. Após várias reuniões, que nos ocuparam grande parte da semana, ainda nem sabemos se a premissa é biologicamente rigorosa.

Além disso:

– A cosedura de ânus não é um superpoder em torno do qual consigamos basear um herói comercializável. Invisibilidade, piroquinésia, durabilidade, força – isto sim, são poderes pelos quais os leitores se interessam. O Capitão Crochê acaba por cair na redundância, já que conclui cada uma das suas 437 lutas cosendo os ânus dos vilões.

-A sério, onde é que aprendeu a desenhar assim tão bem?

– O Capitão Crochê não é mais do que um cobarde. O seu modus operandi consiste em ficar agachado em armários, à espera que bandidos adormeçam, para que possa sair e fazer crochê. E em todos os casos, o Celso desperdiça 40 a 50 pranchas (com ilustrações de tirar o fôlego, voltamos a frisar) a detalhar a explosão do vilão em fezes.

– Na página 54, muito depois das emboscadas do Capitão Crochê se terem tornado monótonas e previsíveis, o Celso introduz o Dedal Maravilha – o sidekick do Capitão Crochê. Note, por favor, que  um “combatente do crime” que circula por ambientes obscuros a coser ânus, um acto que tenta vender como “justiça”, já é mau o suficiente. Dois, é simplesmente terrível. O que diabo há de errado consigo?

Encontramo-nos genuinamente insultados pelo que julga ser um superherói. Sugerimos que releia O Homem-Aranha, para se familiarizar com a nobre arte de combater o crime. Mas tenha também em mente que este é um negócio subjectivo. Se é verdade que desprezamos o Capitão Crochê, também é verdade que outra editora poderá encará-lo de maneira diferente.

Cumprimentos,

A Equipa Marvel

P.S Durante a reunião editorial que precedeu a escrita desta carta, relembrámos a forma doce como as nossas avós  cosiam malha, durante a nossa infância.


As Orelhas de Van Gogh

Orelha Esquerda: Owwwww!

Orelha Direita: O que é que se passa?

Orelha Esquerda: Ele bateu-me com uma escova.

Orelha Direita: Pfff, grande coisa.

Orelha Esquerda: Mas aleijou-me.

Orelha Direita: Dá um desconto ao homem, que ainda não recuperou daquilo com o Paul.

Orelha Esquerda: Certo… O que ele está a fazer hoje, já agora?

Orelha Direita: Natureza morta. Óleo sobre tela. Girassóis.

Orelha Esquerda: Mais girassóis? Mas o que é esta panca com os girassóis?

Orelha Direita: Podia ser pior. Já te esqueceste do tempo em Nuenen? Aquilo estava tão monótono que ele poderia muito bem ter acabado a pintar estrume. Juro, não consigo ver mais famílias de camponeses.

Orelha Esquerda: Sabes, sinto falta da monotonia. E até acho que ele trabalha melhor o monótono. No fundo, isto dos girassóis não passa de uma tentativa patética de adaptação à comunidade moderna de Arles.

Orelha Direita: Bom, ele está a crescer como artista e não há crescimento sem mudanças. Olha só para ele! Aquela pincelada curta e afiada, qual estalo de chicote! E as linhas, estás a vê-las? Claro que não, meu amigo, a cor é que importa, a arte surge do contraste. E a textura, é como cobrir um bolo com fantasia…

Orelha Esquerda: Tinhamos concordado em não falar mais sobre comida.

Orelha Direita: Erro meu. Mas ouve o que te digo, este tipo vai longe.

Orelha Esquerda: Se o dizes. Não consigo é ver ninguém a comprar quadros com flores gigantescas. Mas isso talvez seja só eu…

Orelha Direita: A questão não é o dinheiro, mas sim a arte.

Orelha Esquerda: Sim, lembra-te disso da próxima vez que ele não conseguir comprar tabaco e acabar com o traseiro no rio.

Orelha Direita: Tem fé, Esquerdy. Tem fé.

Orelha Esquerda: Owwww!

Orelha Direita: O que foi agora?

Orelha Esquerda: Outra vez, não foi acidente nenhum. Ele já me fez a folha.

Orelha Direita: Oh, deixa-te dessas coisas que ele não nos iria magoar.

Orelha Esquerda: Ai é? Esqueceste-te daquela miúda de Etten com um nome esquisito? Num minuto está tudo bem, no outro já está a queimar a mão esquerda na fogueira. A sua própria mão! Ainda me cheira a carne queimada.

Orelha Direita: Na altura ele ainda era uma criança. E estava apaixonado. Agora está mais velho, amadureceu.

Orelha Esquerda: O homem come tinta!

Orelha Direita: Isso só aconteceu uma vez.

Orelha Esquerda: O que já é suficiente para não ser normal. E as cólicas? Oh Deus, a diarreia. Pensei que ele iria acabar a pintar o próprio esterco.

Orelha Direita: Ya, obrigado pela imagem mental.

Orelha Esquerda: Owwww!

Orelha Direita: Outra vez…?

Orelha Esquerda: Isto já está a passar dos limites.

Orelha Direita: Relax, ok? Esta noite o Paul vem aí, acabarão a noite a nadar em absinto e tudo voltará à normalidade (possível). Vais ver.

(Pausa.)

Orelha Direita: Oi, ele está a chorar? Mas de onde é que isto veio, agora?

Orelha Esquerda: Não faço ideia, mas estou a ficar farto destas variações de humor. Ora está bem, ora está mal, ora está bem. É cansativo.

Orelha Direita: Os artistas são temperamentais. Faz parte do processo criativo.

Orelha Esquerda: É bom que el.. Diz-me que aquilo não é uma lâmina.

Orelha Direita: Hmm, bom, talvez se vá barbear.

Orelha Esquerda: A esta hora?

Orelha Direita: Bom, que mais pod-

Orelha Esquerda: Oh não! É mesmo!

Orelha Direita: Queres fazer o favor de te acalm – Fónix!

Orelha Esquerda: Aaiiiiiiggghhh!

Orelha Direita: Isto não está a acontecer! Isto não está a acontecer!

Orelha Esquerda: Arrrrrgggghhhh!

Orelha Direita: Pai Nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no…

(Pausa.)

Orelha Direita: Esquerdy? Estás aí, Esquerdy? Consegues ouvir-me?

(Pausa.)

Orelha Direita: Wow. Bem, isto foi mesmo… Wow. Quem poderia adivinhar uma coisa destas?

Mão Esquerda: Eu.


Será você um novo Vietname?

FAÇA O NOSSO TESTE DE VERÃO E DESCUBRA!

1. Alguns amigos começaram a tratá-lo por “uma guerra que não podemos ganhar, perder ou desistir”:

  1. Que eu saiba, não.
  2. Há pessoas que até são capaz de dizer isso, mas não na minha frente.
  3. Frequentemente – é tão verdade!

2. A sua guerrilha inesperada está a deixar toda a gente numa pilha de nervos.

  1. Mais falso do que isso não há.
  2. Digamos que serve sobretudo para deixar toda a gente alerta.
  3. É a pior característica da minha personalidade.

3. Um conterrâneo seu caminha pela rua vestindo umas calças cáqui e uma camisola branca de algodão. Ele:

  1. É um grato cidadão, disposto a ajudar a impulsionar o novo governo do seu país.
  2. Lança um ataque armado. Quem é que viu aquilo?
  3. Pode muito bem ser um tipo formidável ou um terrorista ignóbil, essa é a parte mais confusa.

4. Você é tão intenso que as pessoas estão a “perder a cabeça”.

  1. Podemos dizer que talvez não.
  2. Há um certo comportamento que apenas é condenável à luz da sociedade. E nem sequer é o que parece.
  3. É uma verdadeira tara!

5. As pessoas dizem que você está a demorar mais tempo do que seria esperado.

  1. Nada disso.
  2. De mim, as pessoas devem aprender a esperar o inesperado.
  3. A minha estadia é de longo prazo pois, para mim, a entrega é tudo.

6. Há dúvidas sobre os verdadeiros motivos da sua presença.

  1. Não são mais do que “borboletas no estômago”.
  2. Óbvio, mas a libertação do povo continua a ser o objectivo principal.
  3. Sou um porco capitalista.

7. Um grupo de americanos reunido no centro comercial está descontente porque:

  1. O novo catálogo da Loja do Gato Preto é uma porcaria.
  2. A maioria veste a mesma camisola listada.
  3. Não estão interessados em morrer.

8. Soldados norte-americanos estão a casar com as suas nativas, tal como no Vietname.

  1. Nunca. Essa parte do território está pejada de minas.
  2. É possível que tenha existido alguma paquera.
  3. Aqui anda tudo a cruzar.

Pontuação

Por cada resposta “1”, você somará 1 ponto. Por cada resposta “2”, você somará 2 pontos. Por cada resposta “3”, você somará 3 pontos.

Veredito

0 – 10: Ufa, você nem chega a ser um Liechtenstein.

11 – 16: Você até poderá ser um Vietname, mas só aquela parte mais desinteressante.

17 – 24: Ei, aquele é o Vietname a olhar para si no espelho?


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