Author Archives: André Silva

Dia Europeu da Disfunção Eréctil

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Vem aí mais um 14 de Fevereiro, Dia do Solitário Peculiar, da Roda Gigante, Dia Europeu da Disfunção Eréctil e daquilo dos Namorados.

Na verdade, nenhum homem liga ao Dia de S. Valentim. O único (e considerável) estímulo que sentem é pensar na probabilidade elevada não apenas de facturar, mas de o fazer com direito a depilação. Foque-se nesse objectivo, vai ver que os sacrifícios vão valer a pena.

Quanto ao postal, basta descobrir qual é o animal preferido dela. Não deve ser muito difícil, pois se namora consigo provavelmente terá um fraquinho por ursos.

Vai ter de lhe oferecer um ramo de flores. Pode-lhe parecer estranho, mas existem outras configurações florais para além da coroa. É verdade que é embaraçoso andar na rua com flores, mas pense que poderia ser pior, algumas mulheres oferecem cestas de fruta aos namorados transformando-os numa Carmen Miranda.

Ela já têm tudo planeado, inclusivé o ar de surpresa ao saber que afinal a vai levar a jantar aquele restaurante da moda. Capriche na gestão da agenda deste dia tão especial, sobretudo assegure-se que não marca com as duas para a mesma hora.

Não tente queimar etapas: para uma quantidade considerável de mulheres, o facto de lhe ajeitar a cadeira ao jantar não conta como preliminares.

Por bizarro que lhe pareça, à refeição deve demonstrar interesse quando ela lhe contar o drama que foi a escolha da cor do verniz.

O final da noite está quase a chegar. Não lhe desejo boa sorte, não vai precisar dela.


O “Elefante Azul” do meretrício

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Reza a lenda que hordas de soldados do Exército Vermelho investiam frontalmente contra os alemães,  limitando-se estes a abrir fogo indiscriminado até ficarem sem munições ou as armas encravarem por sobreaquecimento, acabando esmagados pela força bruta dos números: o drama da estepe russa  está prestes a ser revivido pela selecção nigeriana de futebol.

 

Sucede que a Associação de Prostitutas Nigerianas (APN) veio a público oferecer uma semana de sexo à borla à selecção caso esta vença o CAN, a Taça das Nações Africanas de futebol.  Os números impressionam:  10080 minutos de oferta de sexo por parte de senhoras que chumbariam em dezenas dos mais elementares testes de sanidade. Apesar da pujança  da estatística  os portugueses não ficaram particularmente deslumbrados,  vêem mais acção num fim de semana da “Casa dos Segredos”.

 

Caso a equipa nacional vença a competição  vamos ter uma linha de montagem de profissionais prontas a aviar a rapaziada, uma espécie de “Elefante Azul” do meretrício, apesar de que estas questões de logística entre putedo, equipas de futebol e arbitragem chegaram já a um nível de sofisticação considerável em todo o lado.

 

Gosto de quem abraça uma tarefa com brio e isto é claramente malta dada ao ataque, pode ser um “boom” para as indústrias da gemada e do pau de Cabinda. Perspectiva-se um confronto épico: apesar do poderoso “onze” nigeriano, a APN vai colocar a meio campo um losango capaz de fazer tremer homens de barba rija: gonorreia, clamídia, sífilis, HIV.

 

No último jogo da Nigéria, a equipa nacional bateu a Costa do Marfim por 3 -1, eliminando-a da competição. A congénere da APN na Costa do Marfim não arriscou a mesma proposta, pois se o membro africano já é afamado pelas suas dimensões generosas, quando a selecção nacional é conhecida como os “ Elefantes”, a coisa mete um bocado mais de respeito.


Queres a minha opinião?

“Ninguém dá nada a ninguém.” Ora bem, isto não é exactamente verdade, pois há uma excepção evidente: a opinião. Gosto muito do verbo opinar, até porque qualquer palavra que que inclua a expressão “pinar” ganha automaticamente a minha simpatia.

A opinião é o único exemplo de bem que toda a gente está disposta a providenciar em quantidades generosas inclusivamente quando para tal não é solicitado. Apesar da conjuntura verifica-se que a manufactura de opinião é uma das poucas indústrias anti-crise.

Na realidade, apesar do recurso a alguns artifícios de linguagem mais ou menos eufemísticos, a opinião face-a-face é frequentemente mais imposta que oferecida. Quando alguém questiona “Queres a minha opinião…?”, está a fazê-lo num plano meramente retórico. Pode dizer-se que a opinião é oferecida da mesma forma que os nazis ofereceram um InterRail pela Europa a milhões de judeus e ciganos. Nunca ouvi “Queres saber o que eu acho?” enunciado como uma pergunta, assim como nunca ouvi ninguém dizer “Na minha humilde opinião” de forma humilde.

Devido a um infeliz acaso cósmico, o universo das pessoas mais chatas coincide de forma quase geométrica com o das pessoas que gostam de fazer ouvir o que pensam. Iniciando longos monólogos por “Como eu costumo dizer…”, estes indivíduos gozam de uma popularidade ao nível da caspa ou da mosca na sopa. Ou talvez nem tanto, se querem a minha opinião.


Dizem que cachaça é água…

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Li ontem que o Carnaval de Loulé vai ter corte de 20% no orçamento. Fiquei muito preocupado com a possibilidade de a austeridade se estender a outros locais, pois não estou preparado para uma redução em 1/5 do tamanho do busto das matrafonas de Torres Vedras.

 Quando era gaiato gostava muito do Carnaval. Era um tempo em que os queixinhas da ASAE chateavam bastante menos,  sendo possível encontrar em qualquer papelaria de bairro mais agentes químicos nocivos que nos arsenais iraquianos dos anos 80.  Um rapazola podia sem qualquer chatice comprar um engenho explosivo que faria qualquer etarra de barba rija corar de vergonha.  Acabou-se para sempre a emoção de ver detonar as “bombinhas”, composições pirotécnicas capazes de vazar uma vista ou mandar para o galheiro um póquer de dedos, e por vezes a mão inteira. Apesar do diminutivo carinhoso “bombinha”, a verdade é que houve alguns quarteirões de Berlim arrasados com bem menos na Segunda Guerra. Those were the days.

Eu, vá-se lá saber, era um mariconço de primeira e já ficava feliz por rebentar os célebres “estalinhos”,  que consistiam em dois grãozitos de pólvora enrolados  em papel crepe. Para mim era quanto bastava: uma caganita de material explosivo e já me sentia um rebeldezorro, o Pancho Villa do bairro de Santa Teresinha.

E que dizer do balão de água, provavelmente a melhor invenção desde a lingerie rendada, apesar de que na pré-puberdade eu ainda não tinha discernimento para analogias tão sofisticadas.

Mas há coisas no Carnaval que ainda vão resistindo à marcha do tempo. Passados todos estes anos, seria de esperar que toda a gente o soubesse, pois dizem que cachaça não é água não, a cachaça vem do alambique e a água vem do ribeirão. Mas afinal parece que não, da forma apaixonada como o tema continua a ser interpretado e trauteado em comboiinhos de foliões, diria que ainda subsistem muitas dúvidas.

To be continued.


Midlife crisis

 

fat biker

 

Um homem acorda um dia e acha que deve dar uma volta à vida, começando por reciclar a velharia que tem lá em casa e adquirir uma gaiata da idade da filha, convertendo a poupança-reforma num descapotável vermelho enquanto o diabo escreve um cheque. Vulgarmente conhecido por “Crise de Meia Idade”, os especialistas têm um termo técnico para designar este fenómeno: “Síndrome Camilo de Oliveira e também daquele cinquentão que faz teatro de revista e se amigou com uma catraia de 19 anos, não é nada parvo, o gajo”. No entanto esta nomenclatura não é consensual, pois para algumas escolas de pensamento, Camilo claramente já passou inclusive a “Crise dos 4/5”.

 

De acordo com os dados disponíveis, o indivíduo no Império Romano teria uma esperança média de vida de cerca de 30 anos, pelo que teria a sua crise de meia idade por volta dos  15. Hoje é estranho ouvir falar de crise de meia idade numa fase da vida em que o buço ainda dá as primeiras pinceladas numa fronha martirizada pela acne. No entanto a fronteira etária vai evoluindo com o tempo, pelo que daqui a umas décadas, quando andar lá pelos 60, vamos ter a velhada a fazer tuning a andarilhos em vez de Porsches.

 

Temos então uma súbita atracção por carros desportivos e mulheres na casa dos vinte. Até aqui, obviamente, nada de errado, muito pelo contrário. Mas então porque é que algumas pessoas chamam “crise” a esta fase da vida que aparentemente só revela lucidez e bom gosto? Muito simples, a culpa é toda das motas. Por volta dos 50, mais coisa menos coisa, dispara uma mola no cérebro masculino que leva o indivíduo a pensar “Epá, o que me ficava mesmo a matar era um lencinho e um colete de cabedal com estampados garridos, talvez uma caveira com uns apliques em vermelho.” E pronto, lá vai o “Avô Cantigas” todo contente a caminho dos prados verdejantes onde pastam as Harley. E é aqui que reside o problema, nem toda a gente fica favorecida de cabedal justo.

 

Tal como acontece com o tabaco nos cafés, a venda de fatos de cabedal devia ser muito restringida quando se trata de indivíduos com mais de 50 anos, principalmente se flagelados pela obesidade. Estes recém-promovidos reis do asfalto transformam o depósito da mota numa espécie de sofá para a barriga. Sofá com chaise longue. Já agora, em relação aos cafés e ao drama da obesidade, acho que as sandes de leitão também deviam estar dentro de uma maquineta como a do tabaco, sendo desbloqueado o acesso apenas pelo funcionário do estabelecimento. Fica a proposta.


Queres conhecer o Principezinho?


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“Rainha Louca”. Por incrível que pareça, não estou a falar de José Castelo Branco. Esse é, entre tantas outras coisas, um mero conde. Refiro-me à monarquia profissional. Até me admira não haver ainda mais princesinha choné, tendo em conta que a cópula entre primos direitos sempre foi uma espécie de desporto real. A História está cheia de exemplos de monarcas a quem a saúde mental não abunda, como é o caso de Joana de Castela que passou uns anitos numa tournée europeia com o caixão do marido. “Até que a morte vos separe” é coisa para maricas.

Não desfazendo das outras, eu tenho um fraquinho pela família real britânica. Diz-se que é uma família real, porque, como qualquer família, tem parentes que fazem figuras embaraçosas em público. Até aqui tudo bem, toda a gente tem um tio que se emborracha nos casamentos e dança sozinho com uma gravata na testa à Rambo. O problema da família real britânica é que não podem fazer nadinha, que aparece logo a sarna dos paparazzi a cair em cima, mais certo que as pulgas nos bancos da linha de Sintra. E o pior é que tudo acontece ao pobre príncipe Harry, infeliz vítima dos acontecimentos.

Da família real inglesa, o príncipe Harry é sem dúvida o meu Pokémon preferido, fiquei rendido quando apareceu numa festa com o fato nazi. Fez muito bem em usar aquela camisa, porque toda a gente sabe que o bege dá com tudo. Depois foi a cena em Las Vegas. O rapazito foi fotografado no fato em que veio ao mundo num quarto de hotel em Las Vegas, na companhia de uma cachopa, seguramente preocupada em puxar o lustro ao ceptro real e às restantes jóias da coroa. Uma partida de snooker que passa para um strip poker com prostitutas: vá lá, isto já aconteceu a todos. No fundo Harry foi movido por genuínas preocupações culturais, pretendia apenas dar a conhecer à gaiata o clássico de Saint-Exupéry: “Querida, chega-te aqui, quero que conheças o Principezinho”.

Brevemente venho falar do upgrade hormonal às mamas da Kate. Não percam o próximo episódio, porque eu também não!!


Blitzkrieg no Barlavento

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A nudez é como a tecnologia nuclear, uma força que pode ser usada para o bem ou para o mal, é um perigo se cair nas mamas erradas. Caso mais grave que o da queda das arribas, estranhamente a Protecção Civil não parece muito preocupada com o flagelo das turistas alemãs de meia idade a fazer nudismo no Algarve, não há placas suficientes a alertar para “PERIGO. MAMAS DESCAÍDAS”. Lamentável. O efeito de uma alemã nua é muito mais dramático que o da água gelada: há casos de homens a quem efectivamente desapareceu o sexo depois de um destes avistamentos, sobrando uma triste ervilha para lembrar as glórias de tempos passados. Mas não são só as senhoras, quando vou dar a corridinha de fim de tarde lá calha cruzar-me com um cavaleiro teutónico de espada desembainhada a apontar para Marrocos.

Fazem-me muita confusão os eventos desportivos al fresco, como as corridas e os “World Naked Bike Ride”. Ora, eu mesmo com um calçãozinho de lycra bem acolchoado já acabo o passeio com um andar prontinho para o gangnam style, aquela gente deve ficar mais assada que um salmão na chapa.

Algumas notas sobre a tipologia da nudez. Diz-se nu “integral” porque mete sementes e tofu? E se meter, mete onde? Outra questão, qual é a diferença entre o nu “normal” e o nu “explícito”? O conceito de nudez não é suficientemente claro?

Como se traça a fronteira entre um nu convencional e um nu “artístico”? Basta pôr uma rosa na boca? Há algum organismo que regule isto? Uma coisa eu sei, não posso contar com os meus vizinhos para clarificar isto, fazem sempre reparos desagradáveis quando estendo a roupa em pelota, não têm pinga de sensibilidade artística.

Sou um fã de Spencer Tunick e das suas fotos do nu em massa, há mais gente nua numa foto dele do que na Casa dos Segredos à hora de almoço. Ainda assim acho que devia ter mais cuidado com a matéria-prima das suas fotos, porque de vez em quando vêem-se lamentáveis erros de casting. E não me diga que “a mamilo dado não se olha o dente”, pois lá por se tratar gente de badalo ao léu, não quer dizer que não haja o mínimo de decoro. Gimnofobia designa tecnicamente um medo irracional da nudez. Se se tratar da Fanny compreendo perfeitamente.

Em relação à realidade portuguesa, estou muito desiludido pela forma como tratam a nudez nas revistas masculinas, aquilo nem deve ser considerado conteúdo para adultos. Já vi capas da Playboy com menos pele que o video da Popota. O que fazia falta neste país eram mais mulheres de fibra prontas a mostrar a peitaça sem medos por uma sandes de queijo, uma Rute Marlene e irmã em cada esquina. E uma Ana Malhoa, porque os camionistas também são filhos de Deus.


Armado em bardo

Com esta idade deu-me para aprender música, em vez de me meter numa coisa à homem, como a dependência de álcool ou drogas. Lamentável, bem sei, uma mãe a criar um filho para isto. Pois que há cerca de dois anos deu-me na telha que gostava de saber tocar piano. Não podia ser muito difícil, pensei eu: só havia duas cores de teclas e o essencial era abanar muito a cabeça como o solista de um coro evangélico. O resto viria naturalmente com o tempo, à semelhança do amor nos casamentos arranjados. Foi naturalmente com grande repulsa que encarei a opção que me foi inicialmente apresentada, um livro de ensino para crianças. Que ultraje. No entanto, rapidamente me apercebi que a tarefa era um bocadinho mais complexa que o inicialmente previsto, surgiu o problema clássico do choque entre os modelos teóricos e a realidade, desmoronam como uma adolescente que acabou de beber o seu primeiro shot de licor Beirão.

Dizer que sou pouco talentoso seria esticar de forma cruel e desumana a já frequentemente martirizada figura de estilo do eufemismo. Na verdade,  o uso da palavra “pouco” poderia induzir o caro leitor em erro, levando-o a assumir, com alguma legitimidade, que estaríamos perante qualquer coisa em quantidade diminuta, mas, ainda assim, mensurável. Ora, tal não é o caso. Assim sendo, em abono da honestidade intelectual, digamos que tenho um tijolo em cada mão, tocando com a perícia de Arménio, um trolha da Areosa.

Tive uma passagem fugaz pelas cordas, arriscando umas notas que fariam Jimmy Hendrix aproveitar para imolar-se juntamente com as suas guitarras. Aprendi  e desaprendi cinco acordes ao ritmo de um decréscimo diário de 20%, pelo que ao fim de uma semana já não sabia nada.  Para a posteridade ficou uma frase que uso para impressionar mulheres em bares, “Sabes, Mi menor é com um Sol #”, com um grau de sucesso variável. Não obstante as dificuldades mantive-me firme e perseverante e só desisti passada uma semana. Afinal de contas os bonecos eram mesmo giros e não há nada que estimule tanto a aprendizagem como um rato azul, como toda a gente sabe.

 

Recentemente enchi-me de coragem e voltei à carga nas aulas de piano. Gosto de olhar para uma pauta como se fossem desenhos animados, com a diferença que nos últimos ainda percebo qualquer coisa do argumento. Para mim a pauta anda ao nível da Egiptologia: nunca sei quem é que tem a cabeça de chacal, se é a clave de Sol ou o deus Anúbis.

A vantagem de quem não sabe nada é que tem uma margem de progressão gigantesca, à semelhança de uma mulher feia na rota de carreira de modelo fotográfico. A coordenação motora e sentido de ritmo não abundam, estando situados algures entre as do repolho e do betão armado.

Chamar “música” às minhas construções sonoras será talvez um bocadinho abusivo. Pode-se dizer que eu produzo música no meu piano, da mesma forma que o Dr. Mengele produzia ciência no seu laboratório. Face à sinfonia que proporciono aos fins de semana, os vizinhos já começaram a fazer circular uma petição contra o mau trato de animais no 3º F. O meu trabalho não é consensual, há quem lhe chame arte, há quem diga que lhe faz lembrar a matança do porco lá na terra. Se soltar as rédeas da manada da minha criatividade, é mais certo que vão dar uma valente cagada em qualquer lado do que correr a produzir melodias maravilhosas. Mas não interessa, o show tem de continuar.


Diário de um utente na linha de Sintra

(8:00)  De volta do jornal gratuito, bela maneira de começar o dia. Sempre pautado por reportagens de fundo, muito além da espuma dos dias.

(08:15)  Mercês. Torres a perder de vista, o charme cosmopolita de uma  Manhattan na Faixa de Gaza, a merecer visita demorada.

(08:23) O grito cru de revolta contra a máquina opressiva de um Estado securitário.

(8:40) Lindíssima nesta altura do ano, a Reboleira é conhecida lá fora como a “Paris da Linha de Sintra”.

(08:45) O frio metal da porta é humanizado pela mensagem de desespero, retrato vivo de uma sociedade conturbada em tempo de crise.

(9:00) Último retoque antes da saída da estação,  verdadeira razão para o declínio da profissão de engraxador.

(18:35) De regresso a casa, apanho de fugida o “Abominável Homem das Neves”, ou neste caso, a sua senhora. Os cépticos insinuam que é Photoshop, que o rabo é demasiado grande mesmo para uma criatura mítica.

(18:38) Incontornavelmente os últimos a ser preenchidos, os bancos reservados às grávidas são tão populares como um miúdo piolhoso no recreio da escola.


(18:43)  “A Bela e o Monstro”, musical que retrata a bonita história de amor entre Seal e Heidi Klum. Até ao divórcio.

 

(18:45) “Fuck FMI”, “Amo-te Ana”. O mapa das estações é também geografia de sentimentos, amor e ódio numa sobreposição desconcertante.


(18:50) Nem todos gostamos de fado, o comboio é também santuário da riqueza da diversidade.

(18:55) Espaço de partilha de afectos e emoções, rede social viva.

(19:00) Um utente partilha toques de telemóvel com a restante comunidade, uma relíquia viva dos anos 90.

(19:05) Regresso a casa.  Muito frequente, o utente sentir no pescoço o bafo quente de um outro que quer passar sem bilhete, encostado firmemente ao seu corpo. Um nicho  paradoxalmente inexplorado pelas agências matrimoniais. Até quando?

 

 


Queres fazer perna comigo?

Cinco e quarenta e cinco da manhã. Ainda não mudou a hora e está escuro como breu. A passo ligeiro para não acordar o galo da capoeira da vivenda da frente, o jovem André pega na saca e põe-se a caminho da estação dos comboios. Lá dentro leva uma trouxa de roupa, mantimentos e um monte de tralha que dava para equipar a preceito um acampamento cigano. Vai emigrar? Não, vai ao ginásio.

Foi fugaz a minha passagem pelo mundo da musculação , duas ou três sessões a dar no ferro levantando cargas que pareceriam ridículas até para Madre Teresa de Calcutá. O arranque já não fora muito promissor, mas o golpe de misericórdia surgiu no momento em que ouvi um macacão perguntar a outro “Queres fazer perna comigo?”, com um olhar que, não querendo mentir, tinha qualquer coisa de luxúria. Um piquinho dela. Percebi que era a altura de içar as velas e levantar âncora, preferencialmente para bem longe daquela marujada. No entanto ficou o trauma do episódio e apenas passados um ano e seis ordenados em terapia lá resolvi arriscar e voltar a sério ao ginásio. E desta vez, à bruta.

Aparentemente, e obedecendo a critérios meramente racionais, algo está profundamente errado na vida de um homem que se dispõe voluntariamente alombar com um contentor de ferro e plástico, a horas pouco dignas sequer para o pequeno almoço.

Na verdade, e contra todas as expectativas, tornei-me um rato de ginásio.  Bolas de espelhos, música aos berros, entertainers loucos, assistência histérica. As aulas de fitness fazem lembrar a delegação da IURD em Ibiza. E o mais grave é que me converti à seita.

A primeira e mais relevante informação a reter é que fazer body pump é coisa de homem. A explicação parece-me óbvia: é coisa de homem porque é o que eu faço. Quanto a outras variantes, tenho muitas reservas sobre o seu índice de virilidade. Por exemplo, um homem não dança em cima de um step. Não. Não. A sério, não. O que diriam os nossos antepassados, habituados a caçar mamutes e a jogar às escondidas com tigres dentes de sabre, se soubessem que mantemos a forma a abanar o rabo em cima de um banco de plástico ao som da Lady Gaga. Um homem não pode transformar-se numa reles corista do fitness. Não pode.

No que se apresenta como um claro atentado ao senso comum, nem todos os artifícios são válidos para meter conversa com mulheres. Refiro-me, naturalmente, à frequência de aulas de body combat, que está absolutamente vedada ao sexo masculino. Já é suficientemente errado que um tipo saiba o que é, quanto mais praticá-lo. O body combat é possivelmente a invenção mais parva desde a “mosca para sopas” ou as couvettes especialmente adaptadas para conservar cotão. Gritinhos e socos no ar a um inimigo imaginário com serpentinas nas mãos não constitui decididamente o pináculo da masculinidade, ainda por cima com camuflados e manga cava. Percebo que há gostos para tudo, como a malta que acha graça a barrar cera quente nos mamilos como se fosse Tulicreme, mas isto não me cabe na cabeça.

A experimentação é tolerável, mas o essencial é não repetir o erro. Dramaticamente resolvi arriscar uma aula frequentada apenas por mulheres. Quando a meio ouvi berrar “Meninas, vamos lá levantar essa perna!!!! E é se querem caber nas calças da Salsa!!!” percebi que era hora de me levantar, pegar na pouchette e sair pela porta dos fundos.

Por esta ordem, há três tipos de pessoas que me assustam: as que não pestanejam, as que correm atrás de mim com um cutelo do talho e as que estão sempre a sorrir, como é o caso dos instrutores de fitness.

Trata-se de criaturas que fariam corar de vergonha mesmo os inquisidores mais ruinzinhos, recorrendo a dispositivos medonhos como o TRX para provocar dor e sofrimento e, claro está, com um sorriso na cara. E o pior é que esperam que um tipo faça o mesmo enquanto está a suar que nem um porco, é o equivalente a mandar o paciente assobiar durante uma colonoscopia. Assobiar e bater palmas.“Onde é que pensam que vão?? Não é por acelerarem que isto acaba mais depressa!!”, às vezes tenho dúvidas se me estão a violar ou a mandar fazer abdominais.  Ou melhor, até sei, mas prefiro fingir que não.

 


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