É a interpretação, estúpido!

Olá, leitores que aspiram a ser uns grandes palhaços.

Por “palhaço”, obviamente interpretem “pessoa de elevado porte intelectual”. Nem deveria colocar esta justificação no meu texto, não fosse Rui Machete ter acendido em todos nós aquela luz de alerta que nos lembra de que somos um povo inquisitório, que ao invés de entender que a língua portuguesa tem muitas interpretações, prefere acender as tochas da intolerância semântica e perseguir os palhaços do Governo (vide sinónimo acima).

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O Ministro dos Negócios Estrangeiros é apenas o último alvo dessa ignição de ignomínia ignorante. E nem devia estar admirado por ninguém saber interpretar as suas interpretações. Caramba, se nós precisamos de ler os apontamentos Europa-América para interpretar coisas como os quatro heterónimos de Fernando Pessoa, quanto mais para interpretar coisas como os trinta e um cargos acumulados por Rui Machete.

É por isso que Rui Machete se desdobra de forma tão produtiva em desculpas novas a cada intervenção. Porque este povo é tão estúpido que não consegue ouvir a primeira desculpa e interpretá-la como verdade universal. Não. Para este povo estúpido é preciso arranjar 10,5 milhões de desculpas diferentes, porque isto são indivíduos que são capazes de andar todos com a mesma t-shirt da Zara, mas quando é para ouvir desculpas cada um já pensa pela sua cabeça. Ó, gentinha.

Rui Machete pediu desculpas a Angola? E então?! O júri dos Emmy nomeou o Windeck! Se interpretarmos bem, ao pé disso um pedido de desculpas com intromissão no poder judicial chega a ser insultuoso, de tão pouco bajulador que é.

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Rui Machete recebia o ordenado sob a forma de um seguro de vida? Mais uma vez, aprendam a interpretar e verão que faz sentido. Então se o senhor tivesse um acidente no trabalho e morresse, quem pagava a pensão à família? O Seguro de Acidentes de Trabalho. Ora se se dá o caso de o senhor estar vivo no local de trabalho, quem lhe deve pagar o salário? O seguro de Vida. Faz todo o sentido. Mais a mais, interpretando aquilo que o trabalho destes senhores gerou às finanças do país, pode-se interpretar que o facto de eles estarem vivos e a labutar no BPN é, de per si, um acidente. Catastrófico.

Mais do que criticar Rui Machete, é importante interpretar o percurso deste grande homem para perceber onde terá Rui Machete aprendido a ser a Edite Estrela do nosso Governo. Terão sido ensinamentos do BPN? Hm, duvido. Basta ouvir uma audiência de Oliveira e Costa para perceber que, quer ao nível do léxico, quer ao nível da esfarrapadela que dá às desculpas, estamos perante o Jorge Jesus da banca. Eu tenho para mim que esta capacidade de levar a interpretação da língua portuguesa aos quatro cantos do mundo adquire-se no próprio MNE, um ministério onde “saída irrevogável” significa “quero uma promoção” ou “problemas técnicos para aterragem” significa “cá para mim o gajo trazia o Snowden a bordo. Eu não confio em anões de poncho”.

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Conclusão: é no MNE que se aprende a ser um arauto da interpretação linguística. E se calhar é por isso que não conseguimos voltar aos mercados e a nossa imagem internacional continua na mesma: é que se queremos um Ministério dos Negócios Estrangeiros para potenciar a nossa cultura, convinha criar um Ministério da Cultura para tratar dos nossos negócios estrangeiros.


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