Chapéus há muitos, Rui Costas (e Carlos Sás) há poucos

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O BPN foi provavelmente o maior esquema fraudulento de sempre em Portugal e já custou centenas de milhões de euros ao Estado português. E o que chateia mesmo, mas mesmo o português neste momento? São aquelas moedas do Euro 2004 terem custado quase 30 milhões. Principalmente porque muitas delas devem ter a cara do Scolari.

Os jornais desportivos, mais do que ninguém a não ser o Sócrates, sabem que nós temos esta capacidade de enfatizar o acessório e regredir na espécie quando se fala de futebol. Já vi gente andar à porrada, à pedrada, morrer em estádios. Por outro lado, nunca vi um adepto da Movistar dizer “Eu se apanho um gajo com a camisola da Saxo Bank parto-lhe a tromba toda!” Não sei porquê, mas pronto, o ciclismo não nos puxa para a porrada.

Nem para o insulto. Os comentários às notícias online sobre futebol estão cheios deles: há os SLBosta, os boifiquistas, o FC Porco, os corruptos, o Zbordém, a lagartagem. Já nos comentários ao ciclismo falta aquele cheirinho gostoso a tasca foleira. Não há os “Sexo Bang” ou os “Sky Levante-se, Panasca!”. Ninguém perde tempo a inventar alcunhas para gozar com os defensores do “Rui Bosta”, do “MalVerde”, do “Chris Frootinha” ou do “Alberto Comprador de Droga” – ao que os adeptos de Alberto Contador responderiam, furiosos, “ó Anónimo das 15.52h, tu deves ser daqueles otários fdp que batia palmas ao Lance a Droga Bate Strong, meu ganda boi!” Isto sim, puxava as audiências do ciclismo lá para cima.

As capas dos jornais refletem, infelizmente, as prioridades de quem os compra. Quantos leitores de jornais desportivos sabem de que clube veio o Markovic? Cerca de todos. E quantos é que sabem qual a equipa anterior do Rui Costa? E que ultramaratonas já correu o Carlos Sá? Sinceramente, quantos é que sabiam até hoje que existia o Carlos Sá?
(http://www.carlos-sa.com Só para não dizerem que eu só mando bocas e não promovo o conhecimento alheio)

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Mas a razão maior desta ânsia futeboleira é o facto de o português gostar de viver de expectativas altas e valentes depressões. E isso é a essência do futebol.

Reparem: o Markovic fez um chapeú a um guarda-redes da I divisão suíça. Isso não conta para nada, mas faz o adepto sonhar “Hoje num amigável, amanhã na final da Champions. É um pulinho”

Já as vitórias do Rui Costa e do Carlos Sá não fazem sonhar. Já ganharam. O que é isso?! Chegar e ganhar? Ao fim de centenas de quilómetros? Sem bocas de pré-época, sem casos disciplinares, sem desistir,  sem um “ai, estava muito calor e a água não estava suficientemente fresquinha”? Pff. Isso nem é português, caramba. Não cria expectativas, não gera desilusões. Ninguém vai dizer “Bem, se logo na primeira ultramaratona de Badwater o Carlos já conseguiu ganhar a medalha de ouro, para o ano então ainda ganha a medalha de… ah, pois, já ganhou.”

O português não gosta de vitórias. O português gosta de sinais de potenciais vitórias que depois não se concretizam e dá para apontar o dedo e gozar com os outros.

É por isso que hoje as capas dos jornais vibram com o chapéu do Markovic. É por isso que os adeptos ralham com a importância que dão ao Benfica em vez de falarem do Rui e do Carlos. E é por isso que a palavra mais usada por esses mesmos adeptos nos comentários continua a ser “Rui C…”, não espera, é “Carlos S…”, ai não, espera… “Melão”. É isso, “Melão”.

 


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