Os professores das novas oportunidades.

Quando olho para os meus amigos que decidiram ser professores penso: “Esta gente é estúpida!” – Passámos toda a nossa juventude enfiados em escolas e faculdades e quando finalmente nos vemos livres decidem voltar lá para dentro… Eu achava que era síndrome de Estocolmo, aquele em que os reféns desenvolvem sentimentos de pertença e identificação com os raptores. Mas depois chega o Verão, as férias grandes e percebo o porquê. Realização que manifesto com um sonoro: “Aaaah, pois, é por isto. “

Estou a brincar. Bem, também há quem tenha decidido ser professor por esse motivo mas acredito que a maioria tenha gosto em ensinar, partilhar conhecimentos, encaminhar os jovens e ajudar a formar o futuro.
Bonito, não é? Eu sei. Ser professor é tão bom. Ter a admiração dos pais e criançada,  um ministro que salvaguarda a segurança profissional, ter colocação perto de casa, ter uma boa posição social, ser bem remunerado… ah, esperem, não estamos em 1982.
Por esta altura já muitos de vocês estarão a pensar: “Se conhecesses alguns professores que eu conheço…” – Eu também conheço. Há bons professores que são más pessoas e boas pessoas que são maus professores.

PROF. bamboEste é espectacular.

Agora o que eu não sabia era que poderia haver um enorme colectivo de “professores” a dar-nos uma lição tão simples, clara e corajosa como nos estão a dar, um pouco por todo o mundo.

brasil

Quando vi esta imagem pensei: “Olha! Estão a dar água de coco.” – Depois percebi que não. Era uma manifestação.
– Se calhar vocês não prestaram atenção porque ainda não apareceram fotos de protestantes roliças com os seios desnudados. –

Então os brasileiros que estavam tão bem a beber um chope e a dançar samba enquanto vêem futebol foram meter-se numa encrencada destas?! Deve ter sido qualquer coisa importante, sei lá… a dupla Sandy e Júnior terem prometido um concerto e zangaram-se outra vez ou a Maitê Proença falou mal da novela Tieta, não sei, alguma coisa assim de muito grave.
Vou a ver e afinal esta multidão toda sai à rua por causa de um aumento de R$ 0,20 nos transportes públicos!

20 centavos

Ah, afinal não.
Os brasileiros estão fartos de carnavais com o dinheiro dos impostos, querem ter acesso ao que é seu por direito, decidir para onde vai o dinheiro, para escolas, hospitais e sistemas de transporte. Não para estádios e contas bancárias de políticos corruptos.
Querem mudar o sistema, querem mudar o país, unem-se nos protestos, nos apelos e nos argumentos. Unem-se nos media, nas redes sociais e nas ruas. Um povo brando, boa onda e divertido está saturado de ser pisado. Querem mais pão, menos circo. Basicamente, viram o filme Tropa de Elite 2.
Uniram-se e conseguiram. Os políticos viram a força de um povo e, infelizmente mais do que isso, têm medo e vergonha do impacto que estas imagens possam ter no estrangeiro, por isso, para calar estas pessoas, voltaram atrás, já não vai haver aumento. Mas isso não chega.
É bom ver um povo que se levanta depois de ser posto no chão, um povo que se ergue uma e outra vez depois de ser empurrado, com criticas, ameaças, bastões, gás e balas de borracha. É bom ver que as pessoas não se deixam vencer pelo medo e sobretudo pelo conforto do sofá. Percebem que depende deles e não apenas dos outros, dos amigos, do vizinho.

desculpe o transtorno

Agora, meus amigos portugueses, se querem importar alguma coisa do Brasil, em vez de novelas e sífilis, que seja isto. Isto e a clássica noção “pé di chinelo”, aquela em que se ridiculariza quem usa havaianas na cidade. A sério, parem com isso.
– Eu sei que não é “di”, é “de” mas se com o novo acordo ortográfico o objectivo é que haja uniformização da língua portuguesa e se é suposto escrevermos como dizemos, é “Pé di Chinelo” sim. –

Vá malta, vamos lá aprender com estes professores das verdadeiras novas oportunidades e fazer desta silly season uma época memorável. Se R$0.20 é o suficiente para despoletar esta onda de contestação no nosso povo irmão o que é preciso para nos acontecer o mesmo? Eles têm tempo livre, bom tempo para a praia, vêm aí a bola e jogos olímpicos, eles têm várias distracções, nós não. Qual é a nossa desculpa? Bem sei que: “…não estamos assim tão mal, há quem esteja pior. Não estamos como as crianças africanas a passar fome, não aparecemos nas capas da National Geografic…”
Cuidado malta, esse é um pensamento perigoso e ainda por cima errado. É errado sim senhor, porque nos países do norte da Europa, quem aparece na capa da National Geografic somos nós.

National Geographic da Europa

O que é preciso para nos mexermos?
Também não sei… mas sei que vamos precisar de cartazes maiores para lá caberem os motivos.

NÃO É APENAS


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