A fita que nunca escrevi

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Tenho de escrever uma fita de finalista do 4º ano para o meu filho. Ora cá está uma das maiores injustiças do progresso: hoje escrevem-se fitas de finalista para miúdos que, provavelmente, ainda vão andar mais uma década a estudar; já à geração dos meus pais ninguém escreveu fitas de 4ª classe, apesar de a maioria deles ser realmente finalista.

Por isso, mais do que escrever uma fita para o meu filho, apetece-me escrever uma fita para a minha mãe:

Lisboa, 1967

Luísa,

Parabéns pela conclusão dos teus estudos! O quê, não sabias? 1º ano? Ah, esquece, daqui por diante vais pegar nos conhecimentos teóricos e práticos que acumulaste em quatro anos de excelente aproveitamento escolar e vais usá-los para tratar dos teus irmãos e ajudar na lida da casa. Não gostas? Calma, é só temporário, meu amor. Assim que faças 14 anos podes continuar a trilhar o teu caminho na sociedade. Estudar? Não, miúda! Na fábrica! Vais trabalhar muito todos os dias, exceto um lá para 1974 em que podes ficar em casa, porque Lisboa vai estar uma bagunça. É a Democracia. Esquece, não deste isso na escola. Ainda nem o senhor caiu da cadeira, quanto mais… não sejas apressada, garota.

Vais aprender da forma mais dura que a vida nem sempre é o que nós queremos dela, principalmente quando “nós” significa “crianças pobres num regime que gosta delas ignorantes”. Felizmente és uma miúda bem educada e, mais do que te revoltares contra isso, vais garantir que as gerações futuras não passam pelo mesmo. Ficas pela 4ª classe mas dás no duro para que o teu filho seja “doutor”; o teu destino de férias de eleição vai ser a Fonte da Telha, porque dás no duro para o filho ir de férias para o Algarve, porque estudou muito e merece – como se trabalhar no duro não fosse tão meritório porque no fim do ano ninguém te dá um 17 ou 18 por chegares todos os dias a horas, por seres produtiva e por trabalhares mesmo quando estás doente.

Já diz o ditado: “Quando a vida te dá limões, faz uma limonada”. O problema é que, a pessoas como tu, a vida nem deu limões. Acabou de te dar uma semente e uma enxada. E, mesmo assim, vais plantar o melhor limoeiro do mundo, espremer os limões e ainda lhe colocar o açúcar do bom humor.

Parabéns, finalista!

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