Nunca entregues o coração a um robô de cozinha

C3PO_minhapreferida

Até relativamente tarde na vida, as minhas referências no mundo da robótica eram na melhor das hipóteses pouco promissoras: C3PO, o primeiro robot assumidamente gay e R2D2, com a sua mania de assobiar, o primeiro andróide da classe “Robotrolha”.  Pelo caminho conheci os autómatos das fábricas japonesas de automóveis, muito certinhos em branco celeste e risco ao lado. Nunca fiquei verdadeiramente impressionado pois há competências humanas únicas que uma máquina dificilmente conseguirá reproduzir: ainda estou à espera de um robô capaz de fazer lá as coisas dele mas simultaneamente aviar “A Bola”, “O Jogo” e “O Record” enquanto analisa a jornada à segunda de manhã, tudo isto despachado antes de almoço.

Foi no dia que conheci os Transformers que efectivamente me apaixonei pela robótica. Admirava aquelas máquinas cheias de estilo que se desmultiplicavam em carros, tanques e aviões, sempre prontos para andar à porrada. Megatron, o chefe dos maus, metia-me mais respeito que a Cuca do Sítio do Picapau Amarelo. Só nunca percebi muito bem o ritual do temido líder no acto do abastecimento: apontava para a mangueira da gasolina e dizia “Manda vir, marujo” enquanto piscava um olho e acendia os máximos na traseira. Parecia que gostava mesmo daquilo.

megat

Ainda hoje não me interessa saber de sondas a esgravatar em Marte ou de máquinas que jogam à bola: se é para ver jogadores desengonçados e de mobilidade reduzida prefiro ir a Alvalade. “Battlebots”, o Exterminador Implacável, o meu coração sempre palpitou por tudo o que metesse pancada de meia noite. E o Robocop, claro, que apesar de ser mestiço também se ajeitava para a castanha. Em relação ao Robocop devo dizer que sou a favor da incorporação de tecnologia no corpo humano, desde que seja para ajudar: por exemplo, enxertar um braço biónico com dispensador de toalhetes é coisa que daria muito jeito a qualquer adolescente. Um ou dois.

Não se pode dizer que eu cozinhe mal, porque para cozinhar mal primeiro é preciso passar pela fase em que se cozinha alguma coisa. Lá me vou desenrascando como recolector sobrevivendo de frutos, bagas e legumes crus colhidos na secção de frescos do Continente. Posto isto, quando há coisa de dois ou três anos ouvi falar numa máquina que cozinhava sozinha fiquei mais entusiasmado que Alexandra Lencastre às segundas, dia em que está disposta a pôr o fim de semana para trás e encontrar um novo amor. O robô de cozinha, apesar de não saber dar um soco de jeito, era aparentemente a resposta às minhas preces.

A ideia de “Robô de cozinha” é um bocado triste. No mundo das máquinas, o robô de cozinha é como aquela malta que tenta entrar em Medicina e só se safa com Farmácia. Mas enfim, tecnicamente era um “robô” e eu estava encantado com a perspectiva de o ver disparar uma dose de bacalhau à Braz, em vez de um raio laser cataclísmico. Estava inclusivamente disposto a perdoar a nomenclatura, pois “Bimby” não é nome de robô que se dê ao respeito. Perdido por cem, perdido por mil, já só queria ver a magia da máquina de fazer souflées. Resolvi assistir à demonstração dessa malta que vende o produto, uma espécie de Testemunhas de Jeová, só que em vez da “Sentinela” ou do “Despertai” trazem na pasta um compêndio sobre sorveteria.

bimby

Como um rapazito na noite de Natal, sentei-me com nervoso miudinho à espera da versão culinária do Menino Jesus. Estava louco de entusiasmo, já pensava em férias a dois, fins de semana fechados em casa a fazer mais rebaldaria com comida que no “Nove semanas e meia”. Mas nada, foi um desastre. Aquela panela com rádio FM afinal pouco mais fazia que misturar e triturar coisas, mil euros por uma “um-dois-três” mais fanfarrona. A ilusão durou pouco tempo, menos ainda que um colunista social nos hotéis de Nova Iorque. Nunca entregues o coração a um robô de cozinha.

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