How I met your mother… em português.

how i met your mother PT

Numa rara conversa com o meu pai, uma que foi além do ‘Olá, estás bom?’ e aproveitando a proximidade do meu aniversário tentei descobrir mais sobre mim. Chega uma altura na vida em que não pensamos tanto no ‘para onde vamos’ mas mais no ‘de onde viemos’. Reparo nas rugas do meu pai e apercebo-me que não somos eternos, tenho cada vez menos tempo com ele e sinto que não o conheço. Quero mudar isso.
Perguntei ao meu pai como nasci.
Depois de algumas descrições detalhadas sobre o processo de sair da vagina da minha mãe, não consegui evitar traumas para o resto da vida mas consegui interrompê-lo e explicar que o que eu pretendia saber era a história dele, de como conheceu a minha mãe, de como esse amor nasceu.

O meu pai pareceu surpreendido, emocionado até, olhou para mim e disse:

“Filho, deixa-me contar-te uma história.

Eu era ainda um miúdo e no meu primeiro dia de escola, estava nervoso porque era tudo novo para mim. Na altura não íamos para os infantários, estava habituado a estar em casa com a minha mãe e ir brincar com os meus amigos, agora estava fechado numa sala, com crianças, muitas das quais eu não conhecia e um homem com ar severo, com o seu cabelo branco, olhos esguios, cheios de ódio, óculos na ponta do nariz, bigode fraco e branco, expressão de raiva contida e desprezo por nós. Nunca me hei-de esquecer do seu nome, Clotilde Sobreira.

Eu sei, eu disse que era um homem mas não, afinal era uma mulher. Não parecia mas era.

Eu estava sentado, concentrado, não queria fazer asneiras, ela levantou-se e disse para prestarmos atenção, virou-se para o quadro e começou a escrever, eu seguia o percurso que o giz fazia, só desviei o olhar quando uma bola feita de papel passou por cima de mim e foi embater no quadro a escassos centímetros da mão da Sra. Professora Clotilde. Ela virou-se e em raiva perguntou quem tinha atirado o papel, olhou para mim, apontou-me a sua vara e disse: ‘veio desta direcção.’
Eu não percebi porque é que ela não tirava os olhos de mim, eu não tinha feito nada mas fiquei muito assustado. Depois percebi. Atrás de mim, estava um rapaz chamado Alfredo, estava com o dedo apontado, a acusar-me de ter sido eu a atirar a bola de papel. Ela bateu com a vara na minha mesa, pegou-me pelo braço com tanta força que parecia que ia arrancá-lo e enquanto gritava sobre o que me ia fazer, incitava todos a olhar, a ver o castigo que quem se portasse como eu iria sofrer. No momento em que ela me ia bater, uma voz se ouviu, a mais bela, doce e inocente voz que eu alguma vez ouvi, disse: ‘Não foi ele, foi o Alfredo.’

O Alfredo estava a apanhar verdascadas, eu só ouvia os gritos dele ao longe apesar de estar mesmo ao lado, tudo parecia acontecer em câmara lenta. Eu era o próximo a apanhar. Ele por ter atirado a bola de papel, eu por ser tanso e ela, a minha defensora, por ser delatora. Eu sabia que ia doer mas já não importava, olhei para ela e sorri, ela, apesar do medo, sabia que tinha agido bem e sorria também.

A partir desse dia andávamos sempre juntos, passeávamos, dançávamos, íamos nadar para o rio, brincávamos, jogávamos à apanhada, às escondidas, às corridas… ela ganhava sempre. Um dia não correu tanto, deixou-se apanhar, caímos, rimos. Olhámo-nos em silêncio. Crescemos.

Eu sabia que ia ficar com ela para sempre.” o meu pai sorriu, estava visivelmente emocionado. Tentava não deixar escapar a lágrima que forçava a liberdade. A minha mãe passou, sorriu e encolheu os ombros, continuou a andar.
Fiquei admirado quando o meu pai continuou a falar.

“Um dia, ela disse-me que tinha de ir embora, que o pai ia para França e não deixava cá a família. Perguntei quando iam e ela disse-me que iam no dia seguinte. Acho que nunca abracei ninguém com tanta força durante tanto tempo. Passámos a noite juntos deitados na relva a olhar para as estrelas e a fazer promessas. Adormeci. Quando acordei ela já lá não estava.

Dois dias depois fui para a tropa e não pude ir atrás dela. Era o que eu queria mas não podia.

Acabei o serviço militar, visitei os meus pais, despedi-me no dia seguinte e fui para França.

vista de Paris

Não foi fácil encontrá-la mas encontrei.

Ela correu e abraçou-me. Passeámos e conversámos. Eu contei-lhe que vendi tudo, até o meu carro para poder ir para Paris e ela contou-me como era a vida na cidade da luz. Mostrou-me tudo. Os Champs-Elysées, a Torre Eiffel, passeámos junto ao Sena e por fim levou-me aos jardins de Versailles. Ganhei coragem, pus um joelho no chão, disse-lhe que não gastei tudo na viagem, vendi tudo para poder dar-lhe ‘isto’. Abri a caixa e ‘isto’ era o anel que a tua mãe tem.” Perguntei-lhe:

“Ela aceitou, casaram e depois nasci eu, não foi?”

“Não. Ela pôs o anel mas disse que não podia casar. Estava comprometida com o Alfredo… o mesmo. Que ele tinha ido atrás dela, era pedreiro, ganhava bem e que eu não tinha nada, não tinha futuro e isso para ela não dava.” Fiquei parvo!

Ele continuou: “Fiquei em lágrimas. Eu nunca tinha chorado na vida, não assim. Depois disso fiz muitas asneiras, muitas. Estava numa cidade que não conhecia, sozinho, o coração despedaçado, a mulher da minha vida tinha-me trocado, tentei estar com outras mulheres para a esquecer mas não resultou, eram galdérias, todas… Eu estava perdido.

paris 2
Algumas semanas depois, decidi que não devia desistir, ia lutar por ela. Estava a sair do quarto que arrendei quando vejo o teu avô à porta, ele disse que tinha duas palavras para me dar. Disse que a tua mãe estava grávida e que eu tinha de casar. Casei e nunca mais vi a Isabel.”

“Quem é a Isabel?”

“Mas estás com atenção ou não? A Isabel era a rapariga que disse que eu não tinha atirado a bola de papel. A que foi para Paris e quando fui atrás dela, disse que preferia casar com o Alfredo.”

“Então e a mãe?”

“A tua mãe foi uma das galdé… raparigas com quem estive para esquecer a Isabel.”

“Mas a mãe tem o anel!”

“Tem porque quando eu lhe contei esta história, ela ficou furiosa e disse que não ia aceitar que a outra tivesse um anel e ela não. Foi ter com a Isabel, deu-lhe um murro que a deixou KO e tirou-lhe o anel.”

“Então… Então, eu fui um erro, fui resultado de uma ‘asneira’ ?”

O meu pai olhou-me nos olhos e com uma cara de ‘pronto já me fod…’ disse:

“É por isso que eu não gosto de ter estas conversas. Bá, vamos comer.”

FIM

— sigam os Aristocratas no facebook —

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: