Adeus, até sempre…

  • O texto que se segue é a transcrição do último registo áudio conhecido do Rafael Videira

Gravador

– Está a chegar, o meu fim, eu sinto.

– Gostava de dizer que vou tranquilo mas ainda havia tanta coisa que eu queria fazer, tanto que deixo por fazer.

– Não deixo nada feito. Não escrevi um livro, não tenho filhos, plantei uma árvore mas foi na escola primária e todos os anos os funcionários arrancam as que foram plantadas no ano anterior para que as crianças possam plantar novas no dia da Árvore.

– Dor. Sinto uma dor enorme. Não estou com tretas metafóricas isto dói mesmo.
Eu até aguentava não deixar um legado se ao menos morresse sem dor. Eu não fiz nada para merecer isto!

– Dói-me o corpo todo. As costas, tenho assas a tentar rasgar a pele, a garganta cheia de lâminas e sal, a cabeça parece que vai explodir, o meu nariz, o meu lindo nariz parece uma fonte de nhanha (funga) e está todo escamado… (tosse, tosse, tosse) Esta tosse, esta maldita tosse que não me larga. Esta tosse que me dobra o corpo como um possuído, a miúda do Exorcista não tem nada para me ensinar.

– Eu não fumo, eu não bebo, limito os meus prazeres carnais às permissões dadas pela minha namorada e não às oportunidades que me são apresentadas. Não peco. E é isto?
Sofro assim?

– Não estejam a ler isto com um ar condescendente, a chamar-me de fraco e de exagerado. Vocês não sabem o que é sofrer.
Eu caí de uma altura de um 2º andar… um 2º andar à portuguesa, portanto r/c, 1º e 2º andar. Caí de costas, fiquei sem respirar, deixei-me estar sossegado no chão, recuperei o fôlego, levantei-me e fui jogar à bola.
Capotei duas vezes. Ambas as vezes saí sem um arranhão, sem sequer sujar a roupa. Podem achar normal em relação à segunda vez, afinal já tinha experiência mas é um talento. A primeira vez que capotei estava a caminho da casa de um amigo, estrada no meio do nada, fiz uma curva, vi a recta que se seguia e de repente vi o caminho de onde eu vinha, no rádio estava a tocar “My Generation” dos Limp Bizkit e no momento em que ele diz “Do you think we can fly? Well I do, I do… FLY!” a roda do carro bate no lancil e vou às cambalhotas por uma ribanceira abaixo.
O carro parou, saí, subi a ribanceira, vinha um autocarro, levantei o braço, ele parou, entrei e pedi um bilhete até à terriola mais próxima.

– Eu sei que estes exemplos não são daqueles grandes momentos em que provamos o nosso valor, a nossa coragem, nunca estive numa guerra a sério mas posso dizer que vivi com duas mulheres ao mesmo tempo enquanto uma estava na puberdade e a outra na menopausa… não é bonito mas sobrevivi, o meu pai não teve essa sorte. Está vivo mas aquilo não é viver.

(tosse, tosse) Mal… (tosse, tosse, tosse) Maldi… (tosse, tosse, tosse) Mal… (tosse, tosse) Ma… (tosse) Maldita tosse. Anseio pelo fim para não ter de lidar mais com esta tosse.
O meu corpo parece feito de um material que contém lava, lava que flui mas não escapa, lava que ferve mas não… mas quem é que está a brincar com o termóstato? Fechem as janelas, caral… Que frio é este? O meu corpo não sabe o que é. Qual lava qual quê? Agora estou para aqui a dançar o Harlem Shake sozinho! Estou com convulsões devido ao frio e… ai não. Não, não, não, está calor. ESTÁ CALOR! Ai, não consigo tirar este cobertor de cima. Não tenho forças… só me apetece chorar.

– Vamos acabar com isto depressa, eu não quero continuar a viver assim.
Eu não sei o que está do lado de lá, uma versão do Shangri-la, renascer como um marsupial, o céu ou o inferno, só sei que não pode ser pior do que isto.

– A minha namorada está a tratar de mim, quer que eu coma canja, diz que me vai fazer bem.
Eu não quero que  a minha última refeição seja canja. Mas também não consigo engolir nada. Não consigo comer.
É agora, é o fim, eu sinto.

– Esperem aí.

*voz distante
Pára de me forçar essa colher. Eu não quero. Pára. Eu não estou a dramatizar. Eu já te disse que isto não é só gripe. Não é.
Pronto, está bem, eu como a canja. Mas se eu morrer dizes a toda a gente que me aguentei aqui como um herói, que morri como um homem.
Huumm, está bem boa esta canjinha! Moooor, segura tu na colher e dá-me de comer, pode ser?

– (passos)

– (limpa a garganta)

Tenho de ir, chegou a minha hora. (tosse)

– Adeus, até sempre, talvez…

  • Duas horas depois o Rafael Videira foi visto na farmácia perto da sua residência a comprar Bisolvon. Que maricas!
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