“Pais de Tinta”- edições Páginas de Limão

bookDepois de anos na vanguarda da publicação de escritores obscuros, eis que a editora independente Páginas de Limão decide lançar uma antologia dedicada ao Dia do Pai, com alguns dos pais que marcaram obras literárias dos escritores de maior sucesso desta.

O livro, “Pais de tinta”, é uma análise brutal a todas as personagens paternais que pululam pelo catálogo da editora e pretende demonstrar não só a importância que estes personagens têm nos livros em que estão presentes, mas também no desenrolar da vida dos seus autores.

Vamos ficar com um excerto da análise a um dos maiores tesouros lançados pela Páginas de Limão:

Landmart- Análise por Tóni Vasconcellos

Quem não se recorda de Albus Landmart, o pai tirano e castrador de Herbert, o herói de Diários de um Arenque (J. K. Mota Pinto)?

Landmart odeia o filho, que culpa pela morte de sua mãe, Helena. Landmart e Helena tinham-se conhecido na fila de espera das finanças e quando chegou a sua vez de serem atendidos, já estavam casados. Depois de uma lua-de-mel apaixonada no banco de trás de um táxi, foram viver juntos. Tinham planos, sonhos… Iam viver para as Maldivas e abrir uma loja de cobertores eléctricos. Tudo ia bem, até que Helena fica grávida e as coisas mudam. A gravidez não é fácil e Helena acaba por perder a vida no parto. Landmart perdeu o seu amor e em troca recebe um filho que não ama e com a rara patologia de ter o rosto de um arenque.
A vida de Herbert é completamente dominada pelo seu pai, que o diminui à frente de toda a gente e ridiculariza o seu sonho de ser modelo fotográfico para marcas de conservas. “A única fotografia que te vão tirar é com uma camara de gás”, dizia Landmart.

Herbert acaba por se livrar da influência negativa do seu pai e perseguir o seu sonho. No entanto, quando finalmente consegue o seu primeiro trabalho como modelo fotográfico para uma grande marca de conservas de arenque em molho de tomate, é apanhado por um pescador, Acab Timoteck, que só percebe que Herbert é humano, quando o está amanhar. Ironicamente, Herbert consegue cumprir o seu sonho de ser modelo ao ser fotografado para a revista “Caça e Pesca” como a maior presa do mês.

Finalmente sozinho no mundo, Landmart percebe que afinal ama o seu filho e que a vida não faz mais sentido, suicidando-se num dos mais comoventes monólogos da literatura.

Meu filho… Meu filho… Meu filho… Meu filho… Meu filho… Meu filho… Meu filho… Meu filho… Meu filho…- e percebendo que a vida não faz mais sentido, Albus Landmart, o outrora pai tirano, corta os pulsos com uma lata de arenques”.

Alguns críticos afirmam que Landmart acaba por ser uma vívida representação do medo que J.K. Mota Pinto tinha de ser acordado por libaneses, enquanto que outros defendem a teoria de que este é a personificação de Toby, o cão de J.K., que tentava envergonhar Mota Pinto fazendo duras críticas ao seu trabalho nos jantares de amigos.

Na nossa opinião, ambas as teorias estão erradas, uma vez que Toby está claramente representado em A Saliva do Grão Mestre, na personagem de Charles, o ventríloquo que faz macramé em segredo, e que o medo de J.K. ser acordado por libaneses é o mote para a obra Tenho Queijo Cheddar nos Sapatos.

Depois de cuidada análise à vida de Mota Pinto, chegámos à conclusão que Landmart mais não é que uma sumula dos comportamentos do seu próprio pai para com ele. J.K. sofria profundamente pelo fraco relacionamento que tinha com o seu progenitor, que desde sempre desdenhou o seu trabalho e que várias vezes se referia ao filho como “o resultado dos piores 50€ que já gastei”. Carlos, o pai de J.K., era um homem rude, de poucos estudos (era doutorado por Oxford) e que sempre achou que J.K. devia abandonar a literatura e dedicar-se ao negócio da fruta, uma vez que Mota Pinto apresentava a rara patologia de ter o braço esquerdo feito de macieira. Assim sendo, pensamos que se pode mesmo dizer que Diários de um Arenque é uma autobiografia do autor.

O impacto que esta personagem teve em J.K. foi enorme, pois após ter conseguido descarregar toda a sua frustração neste livro, J.K. finalmente conseguiu conquistar a sua confiança e sair de casa sem estar vestido de Henrique VIII.

Depois de Landmart, vamos deixar as comédias e passar para a análise dos pais presentes nas obras mais trágicas de J.K. Mota Pinto.”

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