A abominável imprensa das Neves

Antes de mais, tenho de confessar que gosto muito de jornais e de revistas, assim como gosto de aranhas e de apanhar pé de atleta às segundas. De toda a imprensa escrita nutro especial apreço pela nossa, a portuguesa. Gosto especialmente dos nossos jornais porque, em certa medida, os jornais portugueses funcionam um pouco como a ciência: a sua verdade de hoje é a que será desmentida amanhã. Ora, isto faz-nos ficar agarrados à coisa, suspensos, na antecipação de saber como é que a manchete que acabei de ler agora vai ser estraçalhada amanhã… O que acaba por ser extremamente bem pensado, pois gera em nós uma espécie de dependência, um vício, como a heroína ou as novelas do Tozé Martinho.

Outra coisa de que gosto nos jornais é a maneira como lançam humoristas. Em tempo de escassa aposta na ficção humorística nacional por parte das televisões, é aqui, no papel, que muitos comediantes exercem a sua profissão. O que eu me ri hoje ao ler, no Correio da Manhã, a peça que o humorista E.R. quis passar por jornalismo:

imagesNamorei um mês com a Alexandra quando cheguei a Portugal. Foi passageiro”, admitiu Diogo Cruz, ex-namorado de Fanny, concorrente da segunda edição da ‘Casa dos Segredos’ (TVI). E o DJ, que assistiu em directo à gala do passado domingo, não guarda boas recordações da actual participante do reality show. “A Alexandra é má pessoa. Má para os amigos. Depois de ter namorado comigo, acho que namorou com o Ricardo e o Miguel [ex-concorrentes da anterior edição]”.

Muito, muito bom! Aliás, toda a construção da piada está brutal! Primeiro temos o uso exemplar da running gag: ex-namorado de uma ex-concorrente de um reality show que se pronuncia sobre uma actual concorrente de um reality show que já namorou com o ex-namorado da ex-concorrente do reality show e com dois outros ex-concorrentes do reality show. Depois, temos um jornal que em tempo de crise económica, em tempo de tensões sociais e do surgimento de uma nova pobreza, em tempo de manifestações semanais e de contestação ao governo e ao actual modelo politico/económico/social, escolhe investigar o que é que um DJ pensa dos concorrentes da Casa dos Segredos, uma utilização brilhante da técnica da incongruência! Por fim, como “cereja no topo do bolo”, ainda temos a aparição do nome “Fanny”, que por si só já garante gargalhadas. Muito bom! Oiçam o que eu digo: este E.R. faz-fanny-4918se. Com sorte, se mantiver a cabeça baixa e agir com humildade, dentro de 10 anos poderá ser o novo Guilherme Leite! Vocês vão-me dar razão.

Mas nem só de humor e de manchetes vive um bom jornal, não senhor! Um bom jornal precisa também de cronistas, uma raça pela qual nutro especial apreço, na medida em que me fazem sentir uma comichão raríssima, muito semelhante a urticária ou a limpar o rabo em urtigas. E o que são cronistas? Os cronistas são, na sua maioria, pessoas extremamente sábias e que, consequentemente, escrevem artigos carregadinhos de sapiência, nos quais pululam as respostas para todos os problemas mundiais, ao mesmo tempo que educam o pobre e inculto mortal que os leia. Eu próprio, tenho de confessar, já fui cronista, mas fui despedido pois ao longo dos tempos não só não apresentei a solução para o conflito no Médio Oriente, como também a minha dica para tirar nódoas de azeite de camisas brancas se mostrou demasiado prática e isenta de conceitos sustentados por um qualquer teórico economista do séc. XIX ou XX.

cesarDe todos os cronistas da nossa praça, há um que me enche as medidas, o excelso João César das Neves, que escreve assim no Diário de Notícias:

“Nos múltiplos referendos anexos às últimas eleições americanas, três estados votaram a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Na França, a medida foi aprovada há pouco e Nova Zelândia, Inglaterra e Escócia preparam-se para a adoptar. Existe claramente uma onda triunfal, sobretudo entre países ricos, que parece inverter o panorama neste tema. Assim esta geração muda a milenar definição de matrimónio. O mais espantoso nisto é ninguém parecer dar-se conta do ridículo da situação.”

Hum… Bem, eu não tenho nada contra o casamento gay, mas também não dou aulas na faculdade, como o sapiente das Neves, logo, ele deve estar mais preparado para falar do assunto e ter factos a que eu não tenho acesso… Ok. Ridículo… Mas ridículo porquê, César?

“Primeiro, esta suposta grande conquista dos direitos humanos não envolve nada de realmente importante.”

Ah, ok. Pois, bem me queria parecer que isto da igualdade não tem importância nenhuma.

“Não estão em causa pessoas mortas, feridas, presas ou sequer incomodadas na sua vida pessoal.”

Pois não! Pois não! Aliás, aqueles homossexuais que foram regados com gasolina e espancados foram por causa de… ah… hum… por causa de futebol! Claramente foi por causa de futebol e não por qualquer crime de ódio e discriminação. E muito menos foram incomodados na sua vida pessoal, até porque estavam na rua e não em casa, de pantufas. Até aqui, tens toda a razão, João. E mais?

“É literalmente uma questão de secretaria.”

Pois… e elas aqui funcionam tão mal! Para que é que se há-de estar ainda a entupir mais as secretarias com coisas que não interessam a ninguém quando elas já nem assim se despacham. Sim, senhor! Finalmente alguém com visão! Continua, César.

“Quando a nossa geração pretende emular as lutas dos tempos heróicos contra escravatura, pena de morte ou pelos direitos dos trabalhadores e minorias, o melhor que consegue é isto.”

Realmente! Antigamente lutava-se pelos direitos das minorias, hoje luta-se pelo casamento gay. Ah… Os velhos tempos… Os tempos em que os gays, aparentemente, não eram uma minoria e de que o César tem tantas saudades…

“A seguir deve ir tratar de maçanetas para canhotos ou semáforos para daltónicos. Não é por falta de assuntos graves, pois, entre muitas outras injustiças clamorosas que passam impunes, temos milhões de embriões chacinados pelo aborto todos os anos. Mas esta geração toma isso como conquista democrática.”

Pimba! Vai buscar, sociedade! Todos preocupados aí com os mariconços que querem casar quando há milhões, repito, milhões de vidas a serem ceifadas pela mão putrefacta do aborto! E nem vamos falar das centenas de milhões que morrem sufocados nas paredes de um preservativo… E depois isto conduz a quê?

A que “Os valores de 2010, último ano disponível, são de 3.8 casamentos por mil habitantes, descendo de mais de sete em 1992 e quase dez em 1973. (…) A taxa de divórcio já é 2.6 por mil habitantes. Ou seja, por cada 19 uniões novas desfazem-se 13. A nossa taxa de fertilidade, 1.3 filhos por mulher, das mais baixas do mundo, está ao nível de catástrofe demográfica. (…)Será difícil as gerações futuras entenderam como foi possível ignorar problemas tão vastos, graves e influentes, indo perder tempo com questões laterais e menores. Mas seremos pouco castigados, pois a devastação desta geração tornará as seguintes pequenas, esparsas e traumatizadas.”

E tudo por causa dos rabetas que querem igualdade de direitos e se querem casar, como as pessoas normais! Traumatizar uma geração inteira… Agora, para além de casar, também querem tirar o trabalho ao ídolo do João, é isso? Olhem que o pessoal de Santa Comba é lixado, pá!

No meio disto tudo, só tenho uma coisa a dizer: ainda bem que há pelas nossas terras um César das Neves para nos ir cultivando, avisando para os perigos da mudança e para zelar pela fertilidade do país. Até porque os seus amigos da Igreja precisam de namorados.

Priest-molestation

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