Armado em bardo

Com esta idade deu-me para aprender música, em vez de me meter numa coisa à homem, como a dependência de álcool ou drogas. Lamentável, bem sei, uma mãe a criar um filho para isto. Pois que há cerca de dois anos deu-me na telha que gostava de saber tocar piano. Não podia ser muito difícil, pensei eu: só havia duas cores de teclas e o essencial era abanar muito a cabeça como o solista de um coro evangélico. O resto viria naturalmente com o tempo, à semelhança do amor nos casamentos arranjados. Foi naturalmente com grande repulsa que encarei a opção que me foi inicialmente apresentada, um livro de ensino para crianças. Que ultraje. No entanto, rapidamente me apercebi que a tarefa era um bocadinho mais complexa que o inicialmente previsto, surgiu o problema clássico do choque entre os modelos teóricos e a realidade, desmoronam como uma adolescente que acabou de beber o seu primeiro shot de licor Beirão.

Dizer que sou pouco talentoso seria esticar de forma cruel e desumana a já frequentemente martirizada figura de estilo do eufemismo. Na verdade,  o uso da palavra “pouco” poderia induzir o caro leitor em erro, levando-o a assumir, com alguma legitimidade, que estaríamos perante qualquer coisa em quantidade diminuta, mas, ainda assim, mensurável. Ora, tal não é o caso. Assim sendo, em abono da honestidade intelectual, digamos que tenho um tijolo em cada mão, tocando com a perícia de Arménio, um trolha da Areosa.

Tive uma passagem fugaz pelas cordas, arriscando umas notas que fariam Jimmy Hendrix aproveitar para imolar-se juntamente com as suas guitarras. Aprendi  e desaprendi cinco acordes ao ritmo de um decréscimo diário de 20%, pelo que ao fim de uma semana já não sabia nada.  Para a posteridade ficou uma frase que uso para impressionar mulheres em bares, “Sabes, Mi menor é com um Sol #”, com um grau de sucesso variável. Não obstante as dificuldades mantive-me firme e perseverante e só desisti passada uma semana. Afinal de contas os bonecos eram mesmo giros e não há nada que estimule tanto a aprendizagem como um rato azul, como toda a gente sabe.

 

Recentemente enchi-me de coragem e voltei à carga nas aulas de piano. Gosto de olhar para uma pauta como se fossem desenhos animados, com a diferença que nos últimos ainda percebo qualquer coisa do argumento. Para mim a pauta anda ao nível da Egiptologia: nunca sei quem é que tem a cabeça de chacal, se é a clave de Sol ou o deus Anúbis.

A vantagem de quem não sabe nada é que tem uma margem de progressão gigantesca, à semelhança de uma mulher feia na rota de carreira de modelo fotográfico. A coordenação motora e sentido de ritmo não abundam, estando situados algures entre as do repolho e do betão armado.

Chamar “música” às minhas construções sonoras será talvez um bocadinho abusivo. Pode-se dizer que eu produzo música no meu piano, da mesma forma que o Dr. Mengele produzia ciência no seu laboratório. Face à sinfonia que proporciono aos fins de semana, os vizinhos já começaram a fazer circular uma petição contra o mau trato de animais no 3º F. O meu trabalho não é consensual, há quem lhe chame arte, há quem diga que lhe faz lembrar a matança do porco lá na terra. Se soltar as rédeas da manada da minha criatividade, é mais certo que vão dar uma valente cagada em qualquer lado do que correr a produzir melodias maravilhosas. Mas não interessa, o show tem de continuar.

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