A Marvel Comics anulou o meu contracto

Caro Sr. Celso,

Na Marvel Comics, procuramos ansiosamente novos super-heróis. Talvez seja essa a razão que nos tenha levado a oferecer-lhe, de forma precipitada, um contracto para o desenvolvimento de uma série de banda desenhada , depois de ver alguns deslumbrantes esboços do seu personagem, o Capitão Crochê. Infelizmente, depois de analisar a história que escreveu, a decisão legal – para além de ética – passará sempre por anular o contracto com efeitos imediatos.

A questão central é o superpoder do Capitão Crochê. O Celso define-o como “um vigilante que combate o crime, sobretudo adequado a jovens adultos”.  No entanto, não conseguimos ver mais do que um misantropo desviante, cuja capacidade de costura é utilizada para o insensível fim de coser os ânus dos seus inimigos enquanto dormem. Isto leva-nos a perguntar, que idade tem, 8 anos? Ou isso, ou o Celso será o Marquês de Sade da banda desenhada. Algo que não sabemos, nem queremos saber.

De novo, não podemos deixar de enfatizar o quão visualmente estimulantes são as sequências de acção das suas ilustrações. Se alguma dessas imagens nos tivesse dado a entender que o único poder do Capitão Crochê era selar o intestino dos vilões, cujo corpo acabaria por acumular excremento e explodir, não estaríamos sequer a comunicar agora. Após várias reuniões, que nos ocuparam grande parte da semana, ainda nem sabemos se a premissa é biologicamente rigorosa.

Além disso:

– A cosedura de ânus não é um superpoder em torno do qual consigamos basear um herói comercializável. Invisibilidade, piroquinésia, durabilidade, força – isto sim, são poderes pelos quais os leitores se interessam. O Capitão Crochê acaba por cair na redundância, já que conclui cada uma das suas 437 lutas cosendo os ânus dos vilões.

-A sério, onde é que aprendeu a desenhar assim tão bem?

– O Capitão Crochê não é mais do que um cobarde. O seu modus operandi consiste em ficar agachado em armários, à espera que bandidos adormeçam, para que possa sair e fazer crochê. E em todos os casos, o Celso desperdiça 40 a 50 pranchas (com ilustrações de tirar o fôlego, voltamos a frisar) a detalhar a explosão do vilão em fezes.

– Na página 54, muito depois das emboscadas do Capitão Crochê se terem tornado monótonas e previsíveis, o Celso introduz o Dedal Maravilha – o sidekick do Capitão Crochê. Note, por favor, que  um “combatente do crime” que circula por ambientes obscuros a coser ânus, um acto que tenta vender como “justiça”, já é mau o suficiente. Dois, é simplesmente terrível. O que diabo há de errado consigo?

Encontramo-nos genuinamente insultados pelo que julga ser um superherói. Sugerimos que releia O Homem-Aranha, para se familiarizar com a nobre arte de combater o crime. Mas tenha também em mente que este é um negócio subjectivo. Se é verdade que desprezamos o Capitão Crochê, também é verdade que outra editora poderá encará-lo de maneira diferente.

Cumprimentos,

A Equipa Marvel

P.S Durante a reunião editorial que precedeu a escrita desta carta, relembrámos a forma doce como as nossas avós  cosiam malha, durante a nossa infância.

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