Partido do Povo

“Que se lixe a Troika, queremos as nossas vidas.” Confesso que, para primeira manif em que participei, não podia ter escolhido uma com pior nome. Ninguém quer que a Troika se lixe, voltando a ter a vida que tinham antes da Troika.
Caso não se lembrem, a nossa vida antes da Troika era ter como primeiro-ministro um senhor chamado José Sócrates. Portanto, das duas uma: ou há saudosistas do Sócrates, e esses querem pagar à Troika; ou há quem não queira pagar à Troika e esses não têm saudades do passado: têm ânsia de uma vida que nunca tiveram. E depois há provavelmente a maioria, que não quer deixar de pagar à Troika e tem tantas saudades do Sócrates como de comer óleo de fígado de bacalhau.
Agora, pessoas que queiram rasgar o acordo com a Troika e investir esse dinheiro num voo Paris-Lisboa?! Nunca! Nem num voo da Ryanair, que mesmo esses têm hipóteses de chegar à Portela inteiros.

 

Então porque raio fui eu a um evento em que nem concordo com o nome? Porque o país voltou a ser genuíno. Apartidário. Ou melhor, partidário. Voltámos a ver o “Partido do Povo”. O Partido do Povo é o partido mais ambíguo que existe na história da humanidade: é um partido em que alguns não sabem bem o que querem, mas todos sabem que querem o melhor; é um partido que todos apoiam mas a que poucos entregariam o poder; é um partido unido no protesto e separado nas propostas:

– Banca nacionalizada! Estado mais presente!

– Despedimentos coletivos na função pública! Estado mais eficiente!

– Imposto para rendas excessivas nas PPP! Estado mais inteligente!

– Criminalização do enriquecimento ilícito! Estado mais transparente!

– Voltemos à monarquia! Dom Duarte a presidente! (O mais importante num protesto é rimar tudo para criar musicalidade na mente do recetor da mensagem.)

 

Sinto-me orgulhoso por fazer parte desse partido, que pela primeira vez em muito tempo criou a sua própria agenda e pôs os outros partidos a falar em função dele. Porque o Partido do Povo é como o elenco dos Expendables: sozinhos não têm aquela piada, mas quando se juntam metem medo.

E agora? Consequências práticas? Cabe a nós manter a agenda e capitalizar este movimento. Mas pelo menos este movimento já abriu um precedente para potenciar o sucesso escolar das nossas crianças. Reparem: o PSD vai ter de convocar um Conselho Nacional e levar até quarta feira para interpretar e responder a meia dúzia de palavras de Paulo Portas. Portanto, quando o meu filho tiver de interpretar um texto num exame de Português, ao invés de sofrer o stress de ter uma hora para o resolver, pode pegar na folhinha, trazê-la para analisar em Conselho Familiar e levar o texto interpretado 4 dias depois.

O que, convenhamos, num país em que se tiram licenciaturas num ano e se passa a cadeiras de faculdade por fax, não é mais do que uma ideia genial para democratizar a trambiquice.


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