Monotonia em série

 

Afinal para que serve a Matemática? Nunca uma questão foi colocada com tanto afinco por alunos do ensino preparatório e secundário de todas as gerações. Quer dizer, nenhuma além de “Mas afinal o que é que eu tenho de fazer para curtir com a  Cátia do 9º C?”. Desde os tempos do secundário, sempre achei que a Matemática não servia para nada mais que crivar de nódoas a reluzente tapeçaria do meu desempenho académico. O inevitável “3” no fim de cada período era olhado com repulsa pelas restantes notas na pauta, como se fosse portador de lepra.

A Matemática e a Educação Visual, já agora. Na verdade, os professores nunca conseguiram compreender a pujança e o arrojo artístico do meu traço, uma verdadeira pedrada no charco. Consideravam-no, na sua pequenez intelectual, mera azelhice. Pobres almas. Ainda assim, guardo com carinho algumas recordações de Odete, a professora de Educação Visual do 8º ano, conhecida e acarinhada na escola como “puta da velha”.

Ainda assim, quando chegou o 10º ano e a altura das grandes decisões, apesar de gostar mais de letras, acabei por não escolher “Humanidades”,  pois achava que não tinha jeito nenhum para passar fome. Foi, portanto, uma escolha baseada na vocação.

Sempre encarei a Matemática como qualquer coisa de poético, apreciava o festival de bonecada dos “α”, “β”, “δ”, “θ” e afins. Este último, o “téta” sempre foi a minha letra preferida, porque remetia para agradáveis especificidades da fisionomia feminina, que para mim pertenciam nessa altura ao domínio da ficção científica, à semelhança da possibilidade de ter uma nota superior a 70%.  Apreciava o contraste do quadro negro salpicado com as letras gregas, como se uma obra de arte se tratasse, preocupando-me mais em apreciar a estética do que com actividades mundanas como a recolha de notas. Um esteta não se prende com questões menores como regras, prioridades, ou saber quem-é-que-faz-o-quê dentro de um parêntesis, isso é lá com ele. Nunca me quis meter na vida dos outros, por exemplo, achava muito mal a insistência na coscuvilhice em redor das conversas que Pitágoras de Siracusa mantinha com a família.

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A Matemática representou para mim uma série de desilusões, muito tempo antes de ter bocejado com as teorizações de Euler. Designações pomposas como  “Máximo Divisor Comum” ou “Fórmula Fundamental da Trigonometria” acabaram por não estar à altura das expectativas geradas pela nomenclatura. A Trigonometria encerrava no seu corpo teórico a figura que retratava mais fielmente o interesse despoletado pela disciplina: a secante. Outra: os “Casos Notáveis”, um nome tão gabarola para falar de umas jiga-jogas entre “a” e “b” com um “2” às cavalitas. Mais um caso vergonhoso de publicidade enganosa.

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Para mim “Sucessões monótonas” pecava por ser um pleonasmo despudorado, pois o conceito de “Sucessão” já tinha entranhado em si uma carga considerável de aborrecimento, não precisava de ajuda.

Por último, uma breve referência à mania parva de inventar paradoxos por tudo e por nada. No problema clássico formulado por Zenão, temos uma hipotética corrida entre Aquiles, o semi-deus grego, e uma tartaruga, que parte com 100 metros de avanço. Em versão resumida, dizia Zenão que Aquiles nunca a conseguiria apanhar, porque por muito que se aproximasse, existiria sempre um número infinito de pontos a separá-los. Ora, isto é estúpido. Parece-me óbvio que Zenão nunca presenciou nenhuma corrida entre um guerreiro grego e as primas dos cágados. Na prática, não só Aquiles a teria apanhado num instantinho, como adicionalmente lhe teria dado um chuto, só pelo gozo. Ou pelo menos, era o que eu faria.

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