“Queres saber o que é um Lungo?”

Até agora a minha principal fonte de preocupações em relação à bica era saber o que fazer em relação aqueles funcionários que colocam a questão -sempre fresca e pertinente- do “Então, queria ou quer?”. No que diz respeito a este assunto, que nada tem de trivial, existem várias escolas de pensamento sobre a medida mais correcta a tomar. A corrente mais ortodoxa, vulgarmente conhecida como “Escola da Madragoa”, defende que se deve mandar o empregado de mesa pró car#$”#o, ficando o assunto encerrado por ali. Apesar de reconhecer mérito na objectividade da abordagem, penso que não é o comportamento de uma pessoa civilizada. Nestas situações  o mais adequado será sem dúvida atirar-lhe com a chávena, impecavelmente escaldada, mesmo no meio dos cornos.

O acto do beber café nunca me obrigou a tomar grandes decisões, eventualmente tive de optar entre açúcar branco ou amarelo, colher de metal ou pau de canela, e pouco mais que isso. Levava uma vida plácida e simples, tal como Adão no Jardim do Paraíso, até aparecer a galope a manada de máquinas da Nespresso, acompanhada pela concorrência. Quem vê o requinte de uma caixa de cápsulas da Nespresso por fora, nunca poderia adivinhar o que está lá dentro: café. Simplesmente café, e não um colar de pérolas ou diamantes. Gera-se aqui um problema sério de gestão das expectativas em relação às aspirações legítimas de outros produtos alimentícios:  eu, por exemplo, defendo que o grão e feijão enlatado da Compal também mereciam um embalamento de maior sofisticação, talvez um acabamento em talha dourada.

À conta das máquinas de café, já não posso ir a casa de terceiros sem levar o dicionário de italiano, sob pena de passar um vexame. Já tenho no curriculum um nível “C”, só à conta dos anúncios em que o George Clooney recebe por engano uma mala com roupa interior feminina. Agora já ninguém pergunta “Queres café?”, mas sim “Então, ristretto ou lungo? Posso-te sugerir o melífluo Variations Caramelo ou estás pronto para te aventurar num Grand Cru com apontamentos de mirtilo e intensidade 5?”  A primeira resposta que me vem à cabeça é naturalmente“Quero lá saber!Sei lá…o  preto.”  Por mim é igual se me oferecerem um Volutto ou um Topo Gigio. Recomendo ao leitor que se nestas situações estiver na presença de alguém que não merece o mínimo de maneiras ou consideração  -como a nossa família- a resposta é perfeitamente aceitável e inclusivé recomendável, para não nos voltarem a maçar com perguntas parvas. Mal por mal, pode ser que aprendam. No entanto, não é uma opção válida noutros contextos da vida social, nomeadamente se existir a mínima perspectiva de romance com terceiros, sob pena de ser considerado um parolo, gorando irremediavelmente as hipóteses de chegar a um tête-a-tête mais aconchegado. A máquina de café é, definitivamente, um mal necessário.

Foi pois com alguma apreensão que encarei a ideia de comprar um destes exemplares. Receoso mas resignado, lá me pus a caminho de um santuário dos electrodomésticos, um desses prados verdejantes onde pastam secadores e máquinas de lavar roupa. Vi  pela primeira vez um robot de limpeza. Até se me vieram as lágrimas aos olhos, ao vê-lo para trás e para a frente na sua labuta,  aspirando incansavelmente as migalhitas sem parar sequer um segundo para ver o programa do Goucha, mesmo ao lado no ecrã gigante HD. Fiquei tão contente que me apeteceu dar-lhe um abraço e consumar a paixão ali mesmo, à frente daquela gente toda, indiferente ao que pensavam do nosso amor. Já sonhava com férias a dois em Punta Cana quando, passados 500 euros, me partiu o coração. Foram os 15 segundos de ilusão mais doces da minha vida.

Mentalizado que tinha de pôr uma pedra sobre o assunto lá fui ver da máquina do café, apesar de me fazer bem mais falta um whisky duplo. Passei ao lado dos computadores e do iPad de demonstração, açambarcado por um puto gordo com as mãos cagadas de Bollycao. Encantador.

Assim que me aproximei do stands de uma das marcas, a promotora, mais robusta que arábica, salta e abocanha-me a jugular, só largando quando lhe prometi que não só ia comprar uma máquina, como também tornar-me membro do clube e dar-lhe um rim, que por acaso até nem me estava a fazer grande falta. Levei a máquina para casa e devo dizer que nos damos bem. Ela ensinou-me uma técnica que até hoje se revelou infalível: “E então? Queres vir a minha casa para saber o que é um Lungo”? Classy.

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