A paixão de Moskowitz

“Continua tão bela como quando a conheci”, pensou Moskowitz enquanto olhava para Jenna. Fazia seis anos que se tinham separado e aquela silhueta ainda lhe provocava tonturas, talvez por estar desnivelada, pois Jenna nunca saía de casa sem calçar três sapatos no pé esquerdo. “Para confundir os persas” dizia ela com desdém. Foi isso que atraiu Moskowitz quando a viu pela primeira vez. Isso e o facto de Jenna estar nua e a dançar num varão do metro a troco de pão de centeio.

O seu romance foi tórrido e apaixonado. Jenna era aquilo a que se chama uma “bomba sexual”, capaz de proporcionar prazeres que levam um homem à loucura. Pelo menos assim o dizem todos os amigos de Moskowitz.

O casamento veio rápido. Moskowitz define os primeiros meses do matrimónio como o período mais feliz da sua vida, pois só por duas vezes Jenna envenenou o seu jantar. Mas o estado de graça foi-se e quando Moskowitz deu conta, já Jenna tinha pedido o divórcio e mudado para um apartamento na costa com Yaroslav, uma marioneta que vendia seguros imobiliários.

Moskowitz ficou desolado. Por várias vezes tentou o suicídio, mas no último segundo voltou sempre atrás. “E se não houver vida depois da morte? Onde vou poder ver os resultados desportivos?”, pensava.

E agora, por um acaso do destino, eis que se encontravam os dois novamente no mesmo local, na mesma festa.

– Olá, Moskowitz.

A sua voz era tão sensual como o canto de uma gaivota depois de um derramamento de petróleo.

– Jenna, os anos fizeram-te bem. Estás deslumbrante.

– Não é preciso seres rude.

Moskowitz sentiu-se envergonhado. Ela tinha razão. Nunca tivera jeito com as palavras.

– Pensei que estavas na costa.

– Pensei que já tinhas livrado o mundo da tua abominável pessoa.

Moskowitz sorriu. Ainda a amava.

– Jenna, Jenna… O que é que correu mal entre nós?

– Nunca te amei, Moskowitz. Tens a personalidade de um par de meias e o sex appeal de uma tangerina.

– Sim, mas tirando isso?

Era-lhe insuportável olhar para ela sem a beijar. Aqueles lábios leporinos sempre o tinham deixado de cabeça à roda.

– Oh! Como te odeio Moskowitz. Nunca me percebeste. Dormi com o Jonh, Moskowitz, com o teu melhor amigo. Ah! O que nos rimos de ti quando acabámos de fazer amor. E não foi só com o Jonh. Dormi com o Trevor, o Carl, o Walter, o Hughes, a Sarah e com toda a equipa dos Knicks.

– Jenna, amo-te. Sempre te amei. Diz-me, ainda há esperança para nós?

– Quero que tenhas uma morte lenta e dolorosa, que sejas esmagado por uma roda dentada, ou que te confundam com um pacote de amendoins e te arranquem a pele para te descascarem.

Jenna esbofeteou Moskowitz e afastou-se, deixando-o sozinho. Enquanto a via afastar-se, Moskowitz, sorrindo, mumurou para si:

-Ela não disse que não. Afinal, ainda há esperança.


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