A Amora cheira a rosmaninho!

“O quê? Está um comboio avariado na ponte e já estão 4 comboios da Fertagus parados? Jesus, nunca mais saímos daqui!”

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Se o meu ocasional vizinho de viagem soubesse quem está sentado ao lado dele tinha dito isso baixinho. Ele ri-se da situação: eu suo como um porco de 350kg a fazer 2 horas de Body Combat.

“Ah! Eu não sabia que dava para fazer ginástica no comboio!” Não, seus parvos: sou claustrofóbico!!!

Desculpem, tinha de exteriorizar o pânico. Tocou-vos a vocês.

Eu sei que isto da claustrofobia é inexplicável. Racionalmente sei bem que estou na estação dos Foros de Amora, sentadinho no comboio, com portas abertas e posso sair quando quiser. Mas no meu subconsciente estou no corredor dos azeites do Pingo Doce de Linda-a-Velha.

Um claustrofóbico esforça-se por se sentir bem nestas alturas, mas nunca vê nada positivo sem contrapor com uma desgraça: “Estamos parados? Olha, ao menos dá tempo para escrever um texto para os Aristocratas.” “Sim, e também dá tempo sabes para quê? Falecer.”

Mesmo quando tento pensar em outros assuntos para distrair, o resultado é desastroso:

“Então e as eleições de ontem? Grande mudança na Europa!” “Sim, 21 deputados neo-nazis na Grécia! O Parlamento ainda vai mudar de Câmara dos Deputados para Câmara de Gás.”

“Então e o campeonato? Grande festa do Porto, pá!” “Nós somos do Benfica, estúpido.”

É impossível controlar o desgraçómetro, até porque há pessoas que, como não têm mais nada que fazer, conversam sobre desgraças como ciganos a apregoar no Feijó:

“As pessoas continuam a entrar neste comboio. Daqui a 10 minutos já não se consegue respirar aqui dentro.”

“Pá, e aqueles dois comboios que chocaram em Caxias?! Chiça! Olha se viesse agora um e PUM!”

Desisto. Caramba, 30 minutos parado é muito tempo. Gostava muito de continuar este texto mas vou sair e sentar-me na estação. A rapariga de cabelos encaracolados tinha, além de umas galochas pindéricas, razão. Já não se pode aqui dentro, com a desvantagem de no final não comprar nada com desconto. Perco o meu lugar sentado e quando os comboios andarem vou entrar num qualquer, tipo sardinha em lata. Mas ganho o direito a respirar o ar da Amora. E acreditem: para um claustrofóbico, a Amora em hora de ponta cheira a rosmaninho. Apesar de se chamar “Amora”.

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PS: É verdade, deu mesmo para escrever um texto para os Aristocratas. Se acaso também der para morrer eu aviso.

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