A última obra de Marco José

Marco José é conhecido pelos seus pares como o mais complexo, incompreensível e, por isso, genial escritor e dramaturgo do séc. XX. De todos os escritores que já pisaram o mundo, nenhum terá levado a arte do diálogo tão longe como Marco José. Famoso por tentar quebrar barreiras, as suas polémicas obras ficarão, sem qualquer sombra de dúvida, para a história. Quem não se comoveu com o sofrimento de Jeanette, a pobre criadinha muda que sonhava um dia ser cantora na Brodway, na tragédia “O xilofone de Zeus”? Quem não se arrepiou com o hediondo assassinato de Gervásio, o burguês dono de um hotel cujo único medo era ser confundido com um abacate, no perturbador “Tenho uma mosca na sopa”?

Depois de ter dado ao mundo algumas das melhores obras literárias de sempre, Marco José decidiu colocar termo à sua vida em 1999, mas até na sua morte Marco José foi enigmático, polémico e provocativo. Até hoje desconhece-se o porquê do seu suicídio, e o porquê de ter enchido todos os seus sapatos com açorda de camarão. Muitos vêm neste acto um protesto contra a decadência moral da sociedade, outros dizem que é uma clara alusão à situação política do Tibete. Nunca saberemos. O que sabemos é que nunca vamos esquecer o dia em que acordámos com a notícia de que Marco José tinha sido encontrado morto em sua casa, onde se suicidou abrindo o forno e assando-se, mascarado de salmonete com molho de mostarda.

Hoje, graças ao valoroso trabalho de dois dos seus maiores fãs, os irmãos Mello e Brito, S.A., vemos, finalmente, chegar às bancas a última obra de Marco José. Descoberta depois de todos os pertences de Marco José terem sido adquiridos em leilão pelos irmãos Mello e Brito, S.A., “A fuga das amígdalas”, que é composto através da colagem de centenas de rascunhos em guardanapos e raspadinhas encontrados nos bolsos das calças de Marco José, é a obra que vai colocar Marco José no Olimpo dos escritores, ao lado de nomes como Shakespeare, Marlowe ou Dan Brown.

Aqui fica um excerto de uma das mais perturbadoras cenas jamais escritas por Marco José, a conversa entre o General Faisão, personagem principal do livro, um homem duro devido ao seu treno militar, mas justo e que sofre de psoríase, que por amor se vê metido no meio de uma conspiração para roubar os sapatos de todos os artistas do Ballet Imperial Russo, causando assim a terceira guerra mundial, e Anna Bright, uma sadia mulher inglesa, cérebro de toda a operação e que ama Faisão, mas que não pode colocar o seu amor nem acima das suas crenças nem em cima da sua mesa:

GENERAL FAISÃO- Então é assim…

ANNA BRIGHT- Sim, General. É.

GENERAL FAISÃO- Traíste-me, Anna.

ANNA BRIGHT- Fiz o que tinha de fazer.

GENERAL FAISÃO- Porquê, Anna? As coisas podiam ser diferentes! Podíamos ser felizes, abandonar esta loucura e fugir… Ah! As coisas que podíamos ter feito, Anna, eu e tu. Podíamos ter ido para as Bahamas, abrir a nossa loja de casacos de penas, Anna. Podíamos… Podíamos ter sido felizes.

ANNA BRIGHT- Ah! Faisão, Faisão.., Pobre Faisão… Acreditaste mesmo que eu queria algum dia ir viver para as Bahamas? Tudo aquilo foi apenas para te manipular, para confiares em mim. Precisava de um bode-expiatório, Faisão. E tu foste o escolhido.

GENERAL FAISÃO- Estou a ver… Então não me resta mais nada. Vou-me. (Faisão sai)

ANNA BRIGHT- Vai. Vai Faisão. Amanhã estará tudo terminado. Amo-te Faisão, mas nada pode afastar-me do meu sonho. Do meu verdadeiro sonho: vingar-me do mundo que me separou das minhas amígdalas! Vai Faisão… Agora tenho de me preparar, há muito para fazer. A guerra começa amanhã. Há que preparar a açorda. Há que preparar a açorda…

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