Diários de Jorge António

Depois de anos de espera, eis que chega finalmente às bancas esta obra maior da literatura nacional. Os “Diários de Jorge António”, publicados pela famosa editora maldita Maldita Editora, são uma viagem pelo mundo artístico e filosófico português dos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX.

Autor de obras tão conhecidas como “O furúnculo do crustáceo” ou a polémica “As ceroulas do Imperador” (cujo tema principal, a deserção de um arenque do Regimento de Infantaria, levou mesmo à sua prisão por dois dias e a que sua mãe o deixasse de cumprimentar quando se encontravam na rua), Jorge António travou conhecimento com alguns dos maiores vultos da cultura nacional, como Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, João Marques de Oliveira, etc. São os relatos desses encontros, e muito mais, que podemos encontrar nesta obra. Aqui ficam alguns excertos dos diários deste escritor atormentado:

17- 10- 1889

Acordei cheio de ideias. A conversa que tive com o Camilo foi realmente proveitosa. Bom homem este Camilo. Se não fosse a sua obsessão por bordões, acredito que chegaria longe, talvez até Badajoz. Tenho esperança que esta sua nova peça revele o seu génio em toda a sua plenitude. Vamos ver. Se conseguir encontrar um bom actor para fazer de Alberto, prevejo grande sucesso para o Camilo & Filho.

23-11-1889

Hoje não consegui dormir. A angústia apoderou-se de mim toda a noite e o copo de água que deixei na mesa-de-cabeceira parecia querer dizer-me que, apesar de ser apenas um copo, adoraria poder dançar com o Burgomestre. Não aguento outra noite assim e a única coisa que me faz pensar que hoje o dia será melhor é mesmo o almoço que tenho marcado com Julieta. Ah, Julieta! A minha doce Julieta… Um dia não mais terei de arrombar a porta da tua casa para ler a tua agenda e descobrir onde vais estar a comer.

23-11-1889

Ai que morro! Julieta, Julieta! Porque me negas o teu amor? Depois deste almoço, não vejo outro remédio que não o suicídio. Julieta apelidou o meu novo ensaio, “Fundamentação da Metafísica do Conhecimento Conhecível Enquanto Conhecido- ou a melhor maneira de fazer Queijo de Azeitão” da coisa mais idiota que já leu a seguir à lista da mercearia do José Malhoa! Porque raio precisa alguém de tanta mousse para o bigode?! Adeus, mundo cruel…

24-11-1889

Ainda estou vivo. Tentei pôr termo à vida, mas quando fiz o meu primeiro golpe no pulso, percebi que o meu amor por Julieta não era assim tão forte e que, na realidade, era apenas o seu olho de vidro que me cativava. No entanto tive de ser visto por um médico. Digo médico, mas na realidade o homem era apenas um barbeiro. Vá, um aprendiz de barbeiro… aquele miúdo que apanha os cabelos. O dinheiro está apertado, não dá para mais. Se a minha nova obra não vender mais do que a anterior, temo pela minha saúde. Preciso que venda, pelo menos, 4 exemplares.

13-6-1925

Nunca mais volto a convidar o Pessoa para almoçar. Tive de pagar 6 pratos e o Ricardo nem sequer me fez o favor de ver se o esquentamento que tenho está melhor. E nem queiram saber a vergonha que passei quando o Caeiro se pôs a contar a história de como perdeu a virgindade… Para a próxima convido antes a Florbela, que o incesto pelo menos envolve pessoas.

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