“Eu pago para ver jogar à defesa”

Exmos. Srs.,

O meu nome é Cláudio Almeida. Futebolisticamente falando, sou fã de clubes que jogam ao ataque. Socialmente falando sou fanático por instituições que jogam à defesa. Do país. Do direito à liberdade. Da ordem. Da justiça.

Por isso sou um fã acérrimo da vossa equipa. São chamados a jogo e a tática é quase sempre a mesma: estacionar o autocarro à frente da baliza e controlar o adversário. Vocês não enganam. Numa cena de pancadaria jogam sempre para o empate. Se possível 0-0. Se o adversário passar das marcas e já estiver a “faturar”, pois faturam o suficiente para empatar e controlar a coisa. Nunca para passar para a frente no placard de quem-dá-mais-fruta. Pessoalmente, dou por bem empregues as quotas mensais que pago para apoiar a vossa equipa. Sou um sócio satisfeito e grato à vossa instituição.

Como tal, esta semana fiquei chocado: na quinta assisti a uma manif pacífica que acabou por ser um Zé-Povinho contra a Polícia; na sexta a um Olhanense contra o Benfica que acabou por ser uma manif pacífica. Estranhamente, porque a Polícia atacou mais que o Olhanense. Apesar de o Benfica em teoria ser mais perigoso no ataque que pessoas aos gritos.

“Sim, mas houve gente que atirou ovos a bancos e arremessaram coisas a agentes” Para mim, mero treinador de bancada,  continuava-se a defender em bloco, isolava-se os elementos perigosos e lidava-se com esses. Foi isso que fez o Olhanense e correu bem. Apesar de terem exatamente o mesmo tipo de equipamento que o adversário. Imaginem se o árbitro os deixasse jogar de cacetete e pistola. O Benfica nem passava do meio-campo.

A Polícia também começou bem, com duas linhas de defesas. O adversário andava ali, a trocar a bola no meio-campo, uns gritinhos. Chamar nomes não conta. Se todo o jogador perdesse a cabeça com um “filho da puta” os guarda-redes nem marcavam pontapés de baliza.

De repente, alguém decidiu mostrar que desta vez, e ao contrário do que os associados pretendem, estavam ali para ganhar. Começaram a fazer subidas para o ataque, ora em contra-ataques rápidos com um/dois jogadores à bastonada, ora em ataques continuados à integridade física da outra equipa. Nós, os associados, víamos o evento pela TV e dizíamos o mesmo que dissemos quando a Cátia começou a falar na Casa dos Segredos: “Isto é real?!”

Com a ligeira diferença de que desta vez não teve graça nenhuma.

Claro que há sócios que gostam disto, que até gostavam era de ver a equipa jogar “à antiga”: começava o jogo logo ao ataque e dava uma tareia ao adversário. Tipo Barcelona. Sempre a sufocar. Até ao ponto em que o adversário perdia as manifs por falta de comparência, porque já sabia que ia levar uma coça. Mas para grande alegria da maioria da massa adepta, a equipa já não joga assim desde 74. O máximo que um sócio mais saudosista pode fazer é a mesma coisa que um benfiquista quando quer ver as vitórias europeias: senta-se na TV a ver vídeos a preto e branco enquanto bebe um vinho do Benfica. Ou neste caso, de Santa Comba Dão.

Finalizo esta carta com uma sincera mensagem, para bem da defesa da justiça e da liberdade: espero que se perceba rapidamente porque é que acharam que deviam ir para cima do “adversário”. Porque das duas uma: ou foi um jogador que gosta muito de atacar, e então não serve para a equipa; ou é o treinador que gosta de ver a equipa jogar assim, e então está na hora de exercermos o nosso direito de associados e pressionarmos o presidente do clube a fazer uma chicotada psicológica.

Eu quero é ver-vos, como sempre, a jogar à defesa.

Do presente e do futuro.

Atentamente,

Cláudio

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