Hobby pouco óbvio

Sempre que me perguntavam o que fazia nos meus tempos livres, eu tinha medo de responder. Tinha medo porque o meu hobby era um tanto ou quanto singular, peculiar, diferente. Era um passatempo que poucas pessoas têm e, como tal, eu tinha receio de ser olhado de lado e ostracizado. O meu hobby era pensar.

Não sei ao certo quando comecei com este passatempo. Desde que me lembro que o fazia naturalmente. Recordo-me que já em criança o praticava sem saber muito bem o que era. Pensava sobre Legos, sobre lápis-de-cor e sobre aquele apêndice de rigidez bipolar que se encontrava entre as minhas pernas. Depois entrei para a escola e comecei a desenvolvê-lo de uma forma mais séria. Dava por mim a pensar se a interpretação que o professor fez sobre determinado poema estava mesmo correcta ou se, por outro lado, o poeta estava apenas bêbedo quando o escreveu e, no dia seguinte, nem ele próprio conseguia interpretar o sentido da obra.

Foi nesta altura que comecei a partilhar os frutos do meu hobby com outras pessoas. E se por um lado os meus pais e colegas até o aceitavam, já os professores não o encaravam muito bem. Quando me davam uma reprimenda, eu costumava dizer  “pensava que podia ser isto”, ao que os professores replicavam com “você não está aqui para pensar, está aqui para aprender”. Foi então que percebi que este passatempo não era bem visto por todos. No entanto, continuei a fazê-lo à socapa. Pensava sobre as pessoas, sobre a sociedade, sobre a espiritualidade.

Mas depois entrei na faculdade e cedo compreendi que era incompatível com o método de ensino utilizado: aceitar tudo o que nós dizemos e decorá-lo de forma automática sem nunca o pôr em causa. Estava perante um dilema: ou concluia o curso universitário ou pensava. Angustiado, expus essa preocupação ao director do curso, que me disse: “você pode pensar à vontade, desde que seja o mesmo que todos os outros pensam”. Aceitei o conselho pois reconhecia valor ao director, uma vez que ele pertencia a um partido político. Durante os quatro anos seguintes deixei de pensar e consegui concluir o curso com excelentes notas.

Depois da faculdade ainda tentei voltar a praticar o meu hobby mas, entretanto, arranjei emprego num banco e fazê-lo prejudicava a minha capacidade de trabalho. Confesso que, por vezes, ainda fico a pensar um bocadinho na informação que leio nos jornais e vejo na televisão. Sei que não é bem a mesma coisa, uma vez que não se trata de pensamento próprio, mas faço-o apenas para matar saudades. Felizmente, hoje em dia tenho outro passatempo que me ajuda a esquecer o primeiro e que posso praticar sem medo, uma vez que a maioria das pessoas também o tem. Agora, o meu hobby é comprar.

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