O Lagarto

“Apanha tu”, dizia um. “Mas porquê eu? Apanha tu”, dizia o outro.

João Bastos e João Matos tinham acabado de cortar a cauda a um lagarto fugidio, e ela ali estava, a serpentear. Era a primeira vez que viam algo assim e a curiosidade, ao contrário da coragem, instalara-se. Convém dizer que João Bastos e João Matos viviam numa daquelas vilas em que este tipo de contacto com os animais era frequente. Uma vila pequena, daquelas em que não há muitas crianças.

“Vá, 1, 2, 3.” Cada um pegou numa ponta da cauda e levaram-na para casa de João Bastos, que, pelo caminho, lembrou-se de algo que o seu irmão mais velho lhe tinha dito. “Se cortares a perna a um lagarto, cresce-lhe outra perna”. “Então”, interrompeu João Matos, sempre rápido de pensamento “Se temos uma cauda cortada de um lagarto, vai crescer outro lagarto!”. Os olhos de ambos reluziram, já no quarto de João Bastos, onde este arranjou uma caixa para depositar a cauda. “Amanhã vemos como está”. E assim foi. Mas nada, continuava lá a cauda, inanimada. “Bom, vemos amanhã”. Também não, tudo na mesma. E no dia a seguir. E no outro. No outro também. João Bastos começava a desconfiar do que o irmão lhe tinha dito, já não seria a primeira vez que lhe pregava uma peta. Até que chegou o dia em que ambos, Matos e Bastos, foram dar com um lagarto, novinho em folha, dentro da caixa. Era verdade, que alegria, os lagartos podiam crescer das caudas!

Semanas mais tarde, num dos habituais passeios pelos campos que circundavam a vila,  João Bastos reparou que João Matos o fitava de maneira diferente. “Mas o que foi, pá?”. “Quero ter mais amigos”, disparou João Matos. “Então… e eu com isso?”. “Estive a pensar…. se te cortar uma perna, nasce um rapaz novo. Como o lagarto”. Fez-se silêncio, o vento soprou na planície. Uma pessoa normal, numa situação normal, rejeitaria semelhante proposta. Mas não estamos a falar de meninos comuns, João Bastos e João Matos eram exploradores e, depois do lagarto, tudo parecia possível, afinal. Colocaram a ideia em acção nessa mesma noite e, ao fim de uma semana, já haviam três meninos a brincar na vila. Ao fim de duas semanas, já haviam quatro. Ao fim de três, cinco meninos. Passado um mês, a vila teve, finalmente, uma equipa de futebol infantil.

E foram todos mais felizes, graças ao lagarto. Todos, excepto João Bastos, que entretanto ficou sem corpo suficiente para brincar na rua.

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