Bic laranja.

Era uma vez uma caneta que vivia no fundo de uma mochila. O dono da mochila, pessoa arredada de arrumações, há muito que tinha esquecido a caneta com que tinha partilhado os momentos de escrita mais bem sucedidos da sua vida. A caneta, chamemos-lhe Jacinto, culpava a evolução tecnológica como causa maior do esquecimento a que se encontrava votado. Foram muitas as noites dedicadas a pregar aos restantes objectos esquecidos no fundo da mochila, antevendo o extermínio das canetas. Jacinto sentia falta do bafo quente do dono, quando a tinta nas suas vísceras teimava em secar. Nunca tinha sentido outras mãos, nem queria conhecer mais, as do seu dono eram tudo com que Jacinto tinha sonhado na fábrica. O peso da sua evidente inutilidade era mais gélido que o escuro da mochila. O dono sempre utilizara outras canetas, facto tolerado, até esquecido, por Jacinto, a quem bastava saber que era em si que o dono depositava mais confiança. Mas a chegada de um computador veio a revelar-se fatal. Jacinto ainda abriu a mente e o coração à partilha do dono com o computador, acreditou numa relação moderna, mas acabou esquecido no fundo da mochila, entregue à impiedade do tempo e a meia carga de tinta.

Certo dia, ou noite, já lhes tinha perdido o rasto, sentiu uma mão a vasculhar a mochila. Seria verdade? Seria a ele que o seu dono procurava? Se sim, estaria disposto a colocar para trás das costas a crueldade e injustiça de que tinha sido alvo, mas teriam de ter uma conversa séria, Jacinto ainda prezava a sua dignidade. Sentiu a mão agarrar-lhe o tronco, a emoção fê-lo largar uma lágrima de tinta. Senhor de si, respirou fundo, o sol (era dia, afinal) não lhe permitia ver onde estava. A emoção impediu-o de perceber que já tinha estado naquele mesmo local, a presença do dono centrava toda a sua atenção. Que saudades daquelas mãos, transpiradas, a provocarem-lhe um arrepio enquanto lhe tiravam a tampa. Foi então que, gesto inesperado, o dono o colocou na boca enquanto procurava algo mais na mochila. Jacinto experimentou uma sensação nova, a saliva do dono colocava o suor das mãos a um canto. O gesto fê-lo sentir tão próximo, tão íntimo do dono que não se conseguiu conter. Ainda tentou reagir, reunir forças, mas estava fraco de tanto tempo inutilizado e rebentou a meia carga de tinta na boca do dono. Enojado, este pegou-lhe e, sem hesitar um segundo que fosse, atirou-o para o lixo.

Jacinto sorriu. Por uma vez, a sua vontade tinha superado a do dono. Não se importou, esquecido já estava há muito, só mudou de local e de cheiro.

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