Citius, altius, parvius

Mais rápido, mais alto, mais forte”. E não raramente “Mais parvo”, se estivermos a falar do “Guiness Book World of Records”. Constou-me que o facto de uma pessoa ser detentora de um recorde do Guiness funciona como motivo de orgulho e reforço da auto-estima. E acredito que sim, nem quero pensar na satisfação que deve sentir pela manhã o detentor da maior colecção de sacos de vómito de avião, ou o homem com o maior pelo do mamilo no mundo.

Haverá coisa que deixe uma mãe mais feliz do que ter um filho reconhecido na rua por partir tampas de sanita com a cabeça? Acho difícil. Deter um recorde do Guiness é fonte de fama e o prestígio: quantos corações já terá conquistado o recordista da distância de leite esguichado pelos olhos? Ou o maior coleccionador de artigos dos Estrumfes? Elas caem que nem tordos.


Mas Portugal também tem felizmente seus motivos de orgulho. Filipe Silva, um jovem de Famalicão candidato ao Guiness, é um autêntico ciborgue: metade homem, metade máquina memorizadora de matrículas, decorou com sucesso cerca de 28.000, pelas suas contas. Descrevendo a sua memória prodigiosa como “barras de ouro para a polícia”, desafiou o país em horário nobre: “Ponham-me com um psicólogo, alguém da Direcção-Geral de Viação com um computador e um entrevistador”. Vê-se que é um rapaz corajoso, no lugar dele eu nunca me a arriscaria a chegar perto de um especialista em questões mentais.

Esta ânsia por bater recordes manifesta-se no dia a dia sob a forma de aposta, tendo frequentemente origem em dois factores distintos que muitas vezes se tornam sinérgicos: a chamada “pressão dos pares” e uma quantidade generosa de álcool. Trata-se de um fenómeno que a ciência ainda não consegue explicar, mas acontece que, sob o transe místico induzido por um litrada de vinho, um indivíduo torna-se progressivamente incapaz de resistir a reptos irrecusáveis como “não és homem para enfiar a cabeça naquele monte de estrume” ou “aposto que não és capaz de lamber este tubo de escape”.



A “pressão dos pares” é uma força poderosa dentro de um grupo de adolescentes, tornando-se particularmente poderosa quando um deles é mais estúpido que um bacalhau seco. Na verdade, bati alguns recordes que se tornaram verdadeiros mitos na escola secundária, alguns deles inclusivamente sem sequer me aperceber. Não querendo entrar em fanfarronices gratuitas, posso dizer que me tornei uma lenda ao arrebatar o ceptro de “Carregador de maior tonelagem de pedras da calçada na mochila até casa, sem dar conta disso”.

Um outro recorde de glória duvidosa que detenho é o de “aguentar maior número de beliscões nas mãos entre alunos do 7º H no intervalo, isto enquanto não dá o segundo toque para Matemática”. Sim, beliscões nas mãos. Na altura pareceu-me um bom método para obter respeito entre os meus colegas. Depois de fazer uma asneira destas, um indivíduo com dois dedos de testa inventaria uma desculpa como “Chiça!! A ver se me lembro de nunca mais lutar com um urso: o grande mariconço foi fazer queixa à Sociedade Protectora dos Animais” ou “Pff!!! Se eu estou assim, havias de ver o estado em que deixei a claque dos outros”. Mas não, violando as mais elementares leis do senso comum –e inclusivé da probabilidade- tive a brilhante ideia de contar a verdade dos factos quando cheguei a casa. Podem passar muitos anos, mas há coisas que ficam para sempre no anedotário de uma família.




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