Enfado

Há coisas que me causam alguma perplexidade, como o conceito de “jovem agricultor” aos 40 anos. Outra foi o tsunami fadista que entrou esta semana à bruta pela costa portuguesa, com epicentro em Bali.

 

Reparei há uns dias que havia um alarido anormal à conta da UNESCO, pensei que tivesse acontecido qualquer coisa de extraordinário nas Nações Unidas, como a resolução do conflito israelo-árabe, o fim dos massacres no Darfur ou a descoberta de uma forma eficaz de disfarçar os grisalhos na carapinha de Barack Obama. Mas não, afinal aquilo tudo era por causa do fado.

 

Eu não sou um grande apreciador de fado. Não me atrevo a dizer que não gosto, pois à luz dos acontecimentos recentes era meio caminho andado para me bater à porta uma milícia de écharpe e cabelo à beto, prontinha para me demolhar em alcatrão e penas ao som de “Estranha forma de vida”. Um tipo que diga que não gosta de fado é olhado de lado como uma alminha que não tivesse um blog em 2003, ou que ouse afirmar não ser fã de filmes com vampiros metrossexuais: é coisa para ficar falado no prédio.

A RTP andou uma semana a encher o horário nobre de chouriçada fadista, com entrevistas às sumidades no ramo. No espaço de uma semana apareceram mais especialistas em fado do que americanos em nódoas de sémen. Quantas vezes tolera um ser humano gramar com as expressões “fadistagem” e “fado vadio” antes de ceder ao impulso de distribuir chumbo na via pública? Não sei, mas estive pertinho de descobrir. Não bastavam já os sacrifício da “Troika”, os telespectadores tiveram ainda de gramar com “A lenda da fonte” em horário nobre. Uma crueldade.

O clímax deu-se no domingo de manhã, naquele que foi, provavelmente, o “Última Hora” mais enfadonho na história da televisão. Finalmente lá chegou a decisão e vi manifestações de orgulho como se tivéssemos o ganho o campeonato do mundo, com a comitiva lusa a abraçar-se efusivamente. Estava toda a gente mais feliz que uma pita com bilhetes para os Tokio Hotel.

 

 

No entanto, tenho de dizer que o fado também tem coisas boas: por exemplo, gosto muito dos “novos valores”, todas recrutadas na Face Models. O único elemento que destoa é o senhor que parece um concorrente do “Peso Pesado”, claramente um erro de casting. Agora sim, vamos ter um fadista à altura do baptismo de uma lontra no Oceanário, nada a ver com essa trinca-espinhas da Amália.

 

 

Para fechar com um apontamento positivo, deixo alguns exemplos para futuras candidaturas portuguesas a Património Imaterial da Humanidade, seguramente com igual mérito e pertinência: receitas de caras de bacalhau, piropos em mirandês, ou mesmo o piscar de olho de José Rodrigues dos Santos no fim do Telejornal. Fica a dica.

 

Anúncios

One response to “Enfado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: