Profissões

Descobri, recentemente, que é preciso trabalhar para conseguir sobreviver. Tenho pena que ninguém me tivesse informado disto com a devida antecedência, porque se assim fosse eu não teria participado na competição de natação que ocorreu no escroto do meu pai e optaria apenas por ficar por lá a marinar.

Felizmente, existem diversas profissões à escolha para cumprirmos esta penosa missão. Umas são aquelas de elevada utilidade e reconhecimento social como médico, advogado ou engenheiro. Ou seja, profissões nas quais as pessoas se acham Deus mas, na maior parte das vezes, são mais parecidas com Jesus: só conseguiram o lugar graças ao paizinho. Outras não têm tanto reconhecimento mas são fundamentais para a sociedade, como os homens do lixo, ou satisfazem pequenas necessidades da nossa vida como, por exemplo, os cabeleireiros. Depois, existem outras profissões que são simplesmente idiotas. E eu descobri uma das profissões inúteis de topo: Food Designer.

“Um food designer é alguém que trabalha com comida, mas sem intenção de a cozinhar”. Esta é a definição dada por uma senhora de nome Inga Knölke e que, aparentemente, é raínha desse mundo de idiotas. Obviamente, faz todo o sentido trabalhar com comida sem a querer cozinhar. Primeiro, porque é criminoso e desumano submeter a pobre comida a torturas hediondas como fritar, cozer ou assar. Em segundo lugar, porque é do senso comum que cozinhar ou comer os alimentos está, claramente, demodé. Já não se usa. Finalmente, porque sejamos honestos: quem é que nunca entrou num restaurante e pediu vários pratos, só para ficar a contemplar a beleza desse caos organizado que são as ervilhas, ou o misto de sensações antagónicas provocadas por esse potente estímulo visual que é a açorda?

Meus amigos, estas bestas são as responsáveis por, quando estamos num restaurante e pedimos uma refeição que custa cerca de 500 euros a dose, recebermos um prato gigante com um quadradinho amarelo no meio, uma espuma bordeau ao lado, uma folha verde por cima e tudo polvilhado por quatro ou cinco gotas de um molho castanho qualquer que ninguém sabe bem o que é. Tudo isto para comermos aquilo em trinta segundos e, de seguida, deslocarmo-nos a uma qualquer tasca e pedir um bife ou uma francesinha.

Pessoalmente, tenho curiosidade em saber como se processa a formação destas bestas. Que faculdades resolveram apostar nesta profissão absolutamente essencial para a Humanidade? Claro que a admissão no curso não deve ser nada fácil, pois deve ser preciso ter uma nota elevada nas provas específicas de “Deficiência Mental”, “Inútilogia Aplicada” e “Técnicas de Irrelevância Social”. Creio mesmo que, nalgumas faculdades mais exigentes, será mesmo necessário a pessoa ser submetida a uma lobotomia para conseguir atingir o nível exigido neste curso.

Apesar de não permanecerem dúvidas de que quem decide encetar pela carreira de food designer é um ser acéfalo sem qualquer tipo de capacidade ou talento, é importante ter consciência que a culpa não é só dessas bestas. Em parte, é uma escolha condicionada logo na infância: estes asnos foram o produto de pais permissivos que nunca lhes ensinaram que não se deve brincar com a comida. Por isso, eles começaram por separar as ervilhas, depois puseram-lhes uns bagos de arroz em cima, a seguir colocaram tudo em cima da carne e, no fim, puseram uma folhinha de louro no topo. E voilá, nasceu um food designer –  perdão – uma besta.

Apesar da conversa estar boa, agora tenho que me retirar. Vou a um restaurante aqui na minha rua pedir um bitoque com ovo a cavalo. Mas não é para comer. É só para ficar a admirar a complexa representação simbólica dessa obra de arte que, através de uma elaborada metáfora que tem como base a profissão de jóquei, retrata a delicada questão da alteração da vida animal devido à insensível e brutal imposição da vontade do Homem.


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