Bolinho, bolinho


Sou muito apegado às tradições do mundo rural. Na minha aldeia, felizmente, ainda se preserva a ideia que um homem não tem de fazer ponta de um corno na cozinha. É um tempo que já não existe, o Paraíso perdido onde um tipo ainda não é sujeito à violência de ter de levantar a mesa, podendo despreocupadamente ocupar-se de tarefas de maior nobreza e responsabilidade, como a avaliação da qualidade de aguardentes.

Trouxe à colação a questão das tradições porque ontem foi feriado, dia de Todos os Santos. Como é costume na aldeia, os putos batem à porta a tentar sacar qualquer coisita. Por “qualquer coisita” entende-se dinheiro:  eu bem me lembro do enjoo que sentia quando me apresentavam bolos ou outra coisa qualquer. É como receber roupa no dia de anos. Quem o faz  habilita-se a receber do cachopo um sorriso frio de agradecimento, enquanto ao  som de “ – Ó Rodrigo, dá um beijinho a esta senhora que te deu umas collants tão quentinhas!!!”,  a criança guarda cuidadosamente o ressentimento na arca congeladora do seu coração. A última vez que “fui ao bolinho” tinha já a respeitável idade de 17 anos. Os olhares de reprovação fizeram-me perceber que se calhar era altura de parar por ali. Os olhares de reprovação e uma quantidade apreciável de injúrias.

Existem vários modelos teóricos sobre a maximização de ganhos no “bolinho” (ou “Pão por Deus”). Desde logo importa referir o clássico ataque em dupla, vulgarmente conhecido como “À Testemunha de Jeová”. Por outro lado, nos subúrbios de Lisboa é muito popular entre os miúdos a abordagem “Pão por Deus ou queres antes levar uma chinada?”. Aqui pela aldeia vê-se agora muito a cena dos pais que levam os filhos de carro e os deixam à entrada de cada aldeia: a  chamada “Escola Romena”, que ganha cada vez mais entusiastas.

Tudo isto para dizer que não me tentem tirar o feriado, pois faço questão de celebrar o “Bolinho” na aldeia. Esse, o Corpo de Deus, a Assunção de Maria e o  8 de Dezembro, pois sou devoto da Imaculada Conceição desde pequenino. Enfim, o que importa é fazer um esforço por manter as nossas tradições. Por exemplo, há algumas zonas do país onde ainda se cumpre o preceito piedoso de conceder à porca uma última noite de amor ao som de Barry White, antes de lhe cortar o pescoço pela manhã.

 Devo dizer que tenho um grande respeito pela rica herança transmontana, desde logo pelas festividades  em Vale Salgueiro, Mirandela,  onde  pais e familiares incentivam as crianças a fumar pela altura dos Reis. Mas atenção, só o permitem durante dois dias, porque de outra forma poderia ser considerado um comportamento questionável.

Outra tradição transmontana muito interessante é a dos Caretos. Estes movimentam-se em grandes matilhas, envergando  máscaras de couro ou madeira. Têm por indumentária uma  colcha de lã, a fazer lembrar  uma Emília do Sítio do Picapau Amarelo à transmontana.  São muito divertidos, mas, apesar de tudo, acho que devemos inovar nestas coisas.  Por exemplo: conciliar a prática do tiro com as passeatas dos  Caretos. Era bem castiço e isso dava para chamar muito turista da caça, numa altura em que a região está bem precisada.  Ou mesmo largar uma manada de touros atrás deles, porque não? Interessa é que surjam ideias e contributos positivos para este país andar para a frente, mas respeitando sempre os valores tradicionais.

Tenho um carinho especial  pelos Caretos de Podence, que sobem às varandas e abanam os chocalhos que têm na virilha contra as mulheres solteiras.  Rapaziada, não desfazendo, mas quer-me parecer que isso assim não vai lá, existirão técnicas de sedução porventura menos exuberantes, mas provavelmente mais eficazes.

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One response to “Bolinho, bolinho

  • Rita

    “..a fazer lembrar uma Emília do Sítio do Picapau Amarelo..” mesmo!! LOL
    não fazia ideia que punham as crianças a fumar agora quanto aos Caretos de Pondece já tinha visto uma resportagem sobre eles e de facto é ridículo lol “..abanam os chocalhos que têm na virilha contra as mulheres solteiras”.. WTF?!!

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