Nevermind (deixa lá isso)

Faz vinte anos que os Nirvana lançaram o álbum Nevermind, considerado por muitos uma autêntica pedrada no charco da cena musical da época. Na verdade, para a geração sem nome – a que nasceu entalada entre a “rasca” e a “à rasca” e que por acaso é a minha – este lançamento foi muito mais do que uma pedrada no charco: foi uma pedrada no carro do director de turma,  nos vidros do pavilhão de educação física e, acima de tudo, uma data de pedradas daquelas que fazem rir e dão fome.

Do nada, um gajo mal vestido que nem sequer usava sapatos de vela e tinha um corte de cabelo semelhante ao das professoras de matemática – só que oleoso, despenteado e a cair para a frente da cara – berrou-nos aos ouvidos “deixa lá isso” (tradução livre de nevermind)  e aquilo fez sentido. Além de que o cabelo grande, desgrenhado e oleoso, dava imenso jeito para disfarçar o acne. E as camisas de flanela à lenhador de Seattle eram bem quentinhas.

A capa do disco tinha uma fotografia de uma criancinha nua dentro de um piscina a tentar apanhar uma nota de dólar. Como os tempos mudaram: nessa altura podia-se pôr numa capa fotografias de criancinhas nuas a nadar e estragar notas de dólar. Hoje em dia seria imoral, gasto de água e despesismo.

Além do visual e da música, o teledisco de Smells Like Teen Spirit foi também imediatamente classificado ao mais alto nível: tótil. Neste teledisco, além de cheerleaders com um “A” de Anarquia no seio esquerdo – que na altura acreditávamos significar “apalpa-me”-, um grupo de adolescentes irrequietos desata numa mosh desenfreada. De facto nada melhor para ilustrar o título da canção: de sovaco a feromonas; de gorilas de mentol a ganza, pelos cheiros emanados de uma mosh, consegue-se perfeitamente sintetizar o que é o espírito teen.

Indiscutivelmente, o sucesso desta banda deve-se a Cobain, um grunge homem que neste caso não tinha atrás de si uma grunge mulher: tinha sim uma gaja que para além de ter nome de actriz porno, tudo o mais nela é irrelevante. Mas por sorte tinha um grunge’a baterista (!) – tão bom tão bom que há quem lhe chame Santo Grohl – e um baixista. E chegava.

E agora de repente deu-me saudades do tempo em que mosh não era um tarifário e a palavra tótil não feria os ouvidos. E em que o Duarte Lima era apenas um mero presidente de um grupo parlamentar. “Deixa lá isso”.

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