A Metafísica da 2ª Circular

Todos os dias a 2ª Circular diz-me coisas. A Pontinha é na próxima saída à direita. Seat Ibiza é mais espaço e mais liberdade. A saída 4 dá para Camarate, Charneca, Alvalade e Avenida Roma. Pneuport, os nossos pneus, a sua segurança. Chelas é por aqui. Ford Fiesta é o carro oficial do Santo António (suponho que o cartaz esteja a referir-se às festas do próximo ano e aqui está um bom exemplo de austeridade em tempos de crise, viu Sra. Merkel? Se este e outros cartazes alusivos às festas dos santos continuam de pé em pleno setembro, é porque certamente a intenção é que sirvam também para 2012).

Agora, eu não estou acostumada a que a 2ª Circular faça-me perguntas, e ainda por cima perguntas complicadas.

“…e se de facto Deus existir?”

É isto o que uma ponte da 2ª Circular agora deu para me perguntar, todos os dias quando passo por esta via rápida.

Como assim, “… e se de facto Deus existir”? Como assim?

Olhem, eu até estou acostumada a lidar com perguntas enquanto estou a conduzir. “Por que não engatas logo a quinta?” “Por que não deste o pisca?” “Por que continuas na faixa da esquerda”? “Por que freias tão perto do carro da frente?”, pergunta-me o meu marido. São perguntas para as quais eu não tenho resposta, mas que também não me põem a pensar. Até porque ao mesmo tempo meus filhos estão a perguntar “Mamã, falta muito para chegar?” em looping e isto impede qualquer ser humano de raciocinar.

Mas, quando uma ponte pergunta-me “… e se de facto Deus existir?”, eu, que existo, logo ponho-me a pensar. E a encher-me de dúvidas altamente existenciais.

Em primeiro lugar, o “c” do facto afinal caiu ou não caiu com o acordo ortográfico?

Em segundo lugar, por que colocaram esta pergunta bem em frente ao Estádio da Luz? Por acaso estão a insinuar que eu pare o carro e vá lá dentro beliscar o Eusébio?

Ou estarão a sugerir que eu pegue a saída para a Buraca e vá dar umas voltinhas por aquelas paragens, a ver se eu saio de lá ilesa, o que seria um argumento pró-Deus mais contundente que a deteção do Bosão de Higgs?

Desde que puseram esta pergunta numa ponte da 2ª Circular, não há um só dia em que eu trafegue por esta via sem a sensação de estar a percorrer, no meu possante Opel Vectra 98, o circuito do Grande Colisionador de Hadrões do CERN, eu uma pequena partícula a acelerar em busca de uma prova tão cabal quanto desnecessária da existência de Deus.

Francamente, eu preferia quando as pontes da 2ª Circular não tinham pretensões teológicas e contentavam-se em gritar “Goooooloooooo!”. Uma via rápida a convidar à reflexão é tão incongruente quanto um instrutor de RPM a pregar o Sermão da Montanha.

Isto faz-me confusão, especialmente nestes dias em que, quando passo pela 2ª Circular ao cair da tarde a conjeturar se Deus de facto existe, o pôr-do-sol é tão espetacular e intenso que a luz chega a cegar, numa experiência que, para ser metafísica, só falta eu colidir a cem por hora com o camião que vai à frente.

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