O onicófago


Ramiro sempre teve a mania de roer as unhas, como muita gente por aí. Mas com a crise a assombrar a sua empresa, só uma coisa prosperava na vida de Ramiro, a sua ansiedade, e já não bastavam as dez unhas das mãos para saciá-la. O empresário passou também a roer as unhas dos pés.

Adelaide nem desconfiou do novo hábito do namorado. Até o dia em que ele pediu-lhe a mão, não para casar, mas para roer-lhe as unhas. A empresa de Ramiro ia de mal a pior e as 20 unhas do homem já não bastavam para acalmá-lo. Adelaide deixou que Ramiro roesse as unhas das suas mãos, afinal era preciso apoiar o namorado naquele momento difícil.

Quando damos a mão querem logo o braço. Ramiro não quis o braço, mas quis logo o pé de Adelaide. Ele já não mais se satisfazia com uma dieta de 30 unhas. Adelaide deu-lhe um pé no rabo e Ramiro viu-se novamente com apenas 20 unhas para roer, justamente quando a sua empresa estava prestes a declarar falência e ele precisava roer muitas, muitas unhas, todas as unhas do mundo, do universo e além.

A Pega Rabuda, famosa casa de alterne de uma cidade vizinha, foi uma boa, contudo breve, solução encontrada por Ramiro. Lá, ele podia roer quantas unhas quisesse, desde que pagasse, além do programa, uma taxa de taras bizarras. Porém, pouco a pouco, uma a uma das prostitutas foi-se recusando a ir com Ramiro. Não há nada que irrite mais uma mulher do que estragar o verniz de uma unha, o que dirá de todas.

Não restou a Ramiro outro recurso senão recorrer à força. Atacava sempre à noite, em lugares ermos, pessoas a andarem sozinhas. Roía-lhes todas as unhas. A maior parte das vítimas eram indivíduos do sexo masculino e a imprensa logo conjeturou tratar-se de um tarado homossexual. Ledo engano. Ramiro apenas queria evitar as detestáveis unhas de gel, duras mesmo duras de roer.

O Tarado da Unha, alcunha pela qual Ramiro ficou conhecido, foi detido e brigou com os três primeiros advogados que o atenderam e que insistiam em alegar insanidade mental. Ramiro não queria ir para uma instituição psiquiátrica. O quarto advogado concordou e Ramiro conseguiu o que mais queria: ir para uma prisão comum.

Um cigarro por unha. Mãos e pés valem um maço. Este é o negócio de Ramiro com os detentos na prisão: troca cigarros por unhas para roer. Uma troca justa de vícios que deixa todos os envolvidos satisfeitos. Ramiro na prisão é hoje um homem sereno e em paz consigo mesmo. Tem tantas unhas para roer quanto precisar. Diariamente recebe cartas de mulheres que querem casar-se com ele e enviam fotos de suas mãos com longas unhas que elas fazem questão de jurar que são autênticas e não de gel.

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