Se fosses uma couve de Bruxelas, qual era a tua cor preferida?

Tal como os astros, o facebook tem impacto real na minha vida.  Desde logo no que diz respeito à minha rica saudinha, que está consideravelmente pior: apanhei uma tendinite de tanto bloquear horóscopos, jogos parvos com perguntas, causas e correntes de amizade. Entre esses jogos das perguntas aparecem coisas com tanto nexo como “Se fosses uma couve de Bruxelas, qual era a tua cor preferida?”, entre outras questões fracturantes. No entanto, a epidemia que mais me preocupa é a do “Copia para o teu mural”, uma corrente que geralmente versa o valor de coisas como a amizade, o amor, ou outra pirosada qualquer. Dantes era preciso escrever vinte cartas à mão e deixá-las na caixa do correio. Agora qualquer idiota pode ser chato sem ter trabalho nenhum.

Seja qual for o tema, há sempre alguém que aprecia: já vi um “Estou a morrer de febre tifóide” apanhar quinze “gostos”. Mesmo frases estranhíssimas e sem o mínimo nexo dão direito a um “Sei bem o que queres dizer!!!” ou “Ya, também já me aconteceu. LOL”. O facebook democratizou a prospecção de gado, a ementa está ali muito arrumadinha. No entanto, tal como na vida real, as miúdas giras têm a vida feita. A maior banalidade dá direito a seiscentos “likes” e outros tantos comentários. Por mais bizarro e ininteligível que seja o post, há sempre uma legião de tipos prontos a oferecer a sua concordância e/ou solidariedade a uma donzela mamalhuda em apuros. E atenção, nada contra abdicar de meia dúzia de princípios de vida à conta de uma mulher, até porque isso da espinha dorsal acaba por ser uma coisa muito  sobrevalorizada. Guerra é guerra.

Faz-me confusão ver aqueles casais de namorados que mal têm um arrufo correm a anunciar ao mundo que estão chateados e mudam o estado sentimental para “Quero alguém para martelar à bruta porque o(a)  meu/minha namorado(a) é uma besta”. Passado cinco minutos aparece um post com juras de amor eterno que valem tanto como um contrato assinado pelo Vale e Azevedo.

Uma pessoa sabe que é tempo de abandonar qualquer coisa quando esta passa a ser o brinquedo preferido do Presidente da República. Dou-lhe dois mesitos até ver o Mais Alto Magistrado da Nação começar a estampar “LOL” nas fotos do Marques Mendes a fazer bodyboard e passar as reuniões de quinta feira com o Primeiro para a ilha da Presidência no Second Life. Outro sinal de declínio evidente é o facto de a rede social já ter tido direito a uma cover de um tema do José Malhoa. Não é grande augúrio, seguramente.

Acredito que daqui a uns anos o uso da expressão “dou um like nisso” vai ser tão embaraçoso como ser apanhado com uma prostituta travesti. Isto é, uma que se vista mal. E que tenha conta no Hi5. Agora com licença que vou dar um “like” no meu próprio post. Mas vou experimentar com a mão esquerda, para parecer que é outra pessoa.

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