A essência das férias

Todos nós sabemos que precisamos de férias para fugir ao stress e horários rígidos do trabalho. E quando chegam as férias apercebemo-nos do quão verdadeiro esse pensamento é:

– Que bom que estamos de férias, amor…
– É verdade, viva o descanso e a flexibilidade horária. Olha lá, por falar em horas, já fizeste o almoço?
– Ainda não, amor.
– Então, mas já são dez para a uma. Ouve lá, queres que eu almoce às duas, é?! Daqui a bocado estou a lanchar, não?!

Oh, que se lixe: a essência das férias é meter pirraça aos outros. Pronto, já disse.

O dia mais feliz das férias é sempre o último dia de trabalho. Mais do saber que se vai de férias, não há nada melhor que mostrar aos outros que vamos de férias.
“Eh pá, que cansaço. O que vale é que vou de férias.”
“Olha, se isto não ficar feito hoje, podes pegar no assunto? É que eu vou de férias.”
“Então, bom fim-de-semana. Ai que cabeça a minha… até para o mês que vem. Vou de férias.”

A essência das férias depende do género. Para as mulheres, ir de férias representa também a oportunidade de finalmente ter tempo para fazer algo que realmente as excita e lhes dá um incomensurável prazer: a mala.

A mala de uma mulher faz-me lembrar a Arca de Noé. Tem roupas de todas as espécies, e leva sempre duas de cada.
– Vou levar também a minha gabardina nova.
– Querida, não temos mais espaço.
– E se estiver a chover?
– Querida, vamos ao Sahara em pleno Verão! Vamos andar no deserto, ok? Deserto! Areia quente!
– Pronto! Desculpe, sim?!… Olha lá, três pares de sapatos de “Salto Agulha” chegam?

Deve ser por isso que não há muitas mulheres astronautas. É difícil explicar que dentro de uma cápsula espacial o fato espacial é o mais indicado, mesmo que não mostre o umbigo e o Branco-NASA esteja demodé.
Para os homens, as férias são mesmo o período de descanso por excelência. É a altura em que despimos o fato e mergulhamos na Natureza. Só nós, as árvores, os pássaros, e o computador portátil com acesso ao e-mail da empresa.
Há ainda quem leve algo que o faça rir ou descontrair. Eu levo livros. Há quem leve consolas. Ou música. Ou CD’s da Dina.

O problema é arrumar tudo no carro. A começar pela lógica do “vamos pelas prioridades”. Que para quem não sabe é simples: malas de roupa, sacos com sapatos, malas de roupa, sacos com chinelos, malas de roupa, música para o caminho, malas de roupa, comida (Por esta ordem de ideias).
E às vezes consegue-se arrumar tão bem o carro que ainda sobra espaço para levar as crianças.

O destino de eleição continua a ser o Algarve. Não há nada que não se faça pelo Algarve.

“2000 euros por quinze dias? Oh querida, é o Algarve, deixemo-nos de mesquinhices.
Vamos é pela Nacional que a portagem está pela hora da morte.”

A crise trouxe de facto essa relíquia do antigamente que é viajar pela Nacional. E eu rezo para que a crise traga de volta outro ícone das férias do século XX: carros sem Ar Condicionado. E porquê?

Porque o Ar Condicionado é pouco sexy. Meus amigos: as mulheres de hoje em dia são exigentes, já não se contentam de ver um homem de t-shirt de alças de rede, pêlos no peito, crucifixo em prata e palito na boca.

As miúdas querem ver isso tudo, mas com o braço de fora e a pele a suar. E isso, meus fofos, não é com o vidro fechadinho e brisa de 20º que se consegue.

Porque o Ar Condicionado convida à bichanice. Se há utensílio ridículo nas filas é o Ar Condicionado. Um gajo sai do carro para discutir com quem quer que seja e parece que aterrou num país de mimos.

Eu bem que os espicaço e firo-lhes a masculinidade com grandes tiradas de antigamente:

“Sai cá para fora, ó pinguim de Alfornelos!”
“Anda para aqui sem bronzeador, se és homem!”
“Não te estou a ouvir. O popó tem vidro duplo, é?” 
(Esta é só em casos de emergência, reconheço que é um bocado forte.)

Mas nada. E com esta treta dos vidros fechadinhos já raramente há discussões, escasseiam os concursos de volume de rádio (bons tempos em que o meu Blaupunkt-Bonga arrumava o Grundig-José Malhoa do meu vizinho) e chega a haver Verões em que não vejo uma única cena de pancadaria.

E tira um gajo férias para isto.
É por essas e por outras que eu prefiro viajar quando os putos estão a dormir. Que raio de valores é que se consegue passar à juventude se uma viagem para o Algarve se resume a um polícia a implicar que eu ia para Sul muito depressa, quando eu vi perfeitamente que os chaparros é que iam para Lisboa a abrir feitos malucos?

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