História bem contada

Osvaldo sabia que da sua casa ao andar térreo eram 67 degraus, e dali ao café mais próximo eram 135 passos. Café Alvorada, 11 letras, um estabelecimento com 5 mesas e 17 cadeiras, propriedade da sra. Albertina, que tinha 5 pintas no rosto. Osvaldo não sabia quantas pintas a sra. Albertina tinha no resto do corpo, o que o deixava muito perturbado.

Osvaldo sabia que tinha Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

A sua mania de contar havia tornado sua vida insuportável. Já não conseguia trabalhar, comer, dormir. Mas tudo mudou quando conheceu Martim.

Martim um dia viu Osvaldo no Rossio, a contar as pedras da calçada. Osvaldo já estava lá havia três dias, a roupa já suja, a barba por fazer. As pessoas pensavam que era um mendigo, atiravam-lhe tostões que ele nem se dava ao trabalho de contar. “Contar tostões é para principiantes”, pensava ele. “Contar as pedras da calçada do Rossio, isso é que é!” Mas ao cabo de três dias Osvaldo já estava desesperadinho porque estava a ver que não ia conseguir. Passaram na sua frente as pernas duma gaja boa, Osvaldo perdeu a conta, sentou-se e começou a chorar.

Foi quando Martim teve pena dele, aproximou-se e disse: “Tás a contar as pedras, estás?” E antes mesmo de Osvaldo responder qualquer coisa, Martim logo disse: “São dois milhões, oitocentos e cinquenta e quatro mil, setecentos e vinte e cinco pedras. As brancas. As pretas são dois milhões, duzentos e sete mil, setecentos e cinquenta e seis.”

Martim contou-as em minutos. Martim é autista. Daqueles que são máquinas de calcular em forma de gente. Desde esse dia, Osvaldo e Martim são inseparáveis. Martim conta tudo para Osvaldo. E Osvaldo faz todo o resto para Martim, porque este é um génio dos mais idiotas que há. Toda vez que ouve dizerem que chove a cântaros, Martim olha para o céu à procura deles. Se lhe falam para ir num pé e vir no outro, ele vai a saltar ao pé-coxinho direito e volta a saltar ao pé-coxinho esquerdo. No dia em que conheceu Osvaldo no Rossio, Martim estava a caminho do metro. Ia ao zoológico porque tinham-lhe mandado ir pentear macacos.

Hoje é um grande dia para Osvaldo, que finalmente vai saber quantas pétalas há no arbusto de hortênsias em frente ao café da sra. Albertina. Martim vai contar as pétalas para ele, claro, e Osvaldo, só de maldade, vai dizer ao Martim que ele consegue fazer isso com uma perna nas costas.

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