Cruz Geographic

Neste momento, o mundo atravessa um dos mais complicados períodos da sua história. Milhares de pessoas passam fome, a crise económica alastra-se a quase todos os países, catástrofes naturais seguem-se em catadupa e a corrupção atinge os níveis mais altos de sempre. Posto isto, vou falar daquilo que mais me preocupa neste momento: o Karaoke!

O Karaoke é, possivelmente, a mais ridícula invenção de sempre dos japoneses, povo conhecido por inventar coisas como o “Tamagoshi”, a “Máquina de Assoar” (que consiste num rolo de papel higiénico pendurado na cabeça…) ou a “Máscara Fuma 14 Cigarros” (como o nome indica, uma máscara que te permite fumar 14 cigarros ao mesmo tempo em apenas 2 minutos… máquina esta que Carolina Salgado chegou a encomendar, enquanto estava com Pinto da Costa, consta-se).

E porque é que digo eu isto? Pergunta o leitor, que não troca de meias desde Agosto e usa o preservativo dos dois lados, para poupar.

Eu respondo: porque o Karaoke permite que toda a gente, pelo menos durante uns minutos, pense que é uma vedeta da música internacional, como um Bono Vox, uma Elizabeth Fraser ou um Roberto Leal, mesmo que a sua voz não se distinga do que habitualmente se ouve numa matança do porco.

Em Portugal, como é hábito, a ideia do Karaoke pegou de estaca. Num pequeno espaço de tempo, 90% dos bares nacionais começaram a ter uma “Noite de Karaoke”, normalmente cheia. Ora, e quem são estas pessoas que frequentam as noites de Karaoke? São, na sua maioria,  “Idiotas”, mas “Idiotas” que se dividem em três grandes grupos: os Idiotas que vão cantar em grupo tentando ter piada; os Idiotas que vão cantar sozinhos de olhos fechados; e, finalmente, os Idiotas que vão cantar porque alguém, secretamente, os inscreveu.

Eu, como adepto dos canais História e National Geographic que sou, decidi empreender um minucioso estudo sobre tal espécie, aventurando-me no seu habitat natural durante umas noites. Aqui ficam algumas notas tiradas na primeira noite.

 Ora, o primeiro grupo (os idiotas que vão cantar em grupo tentando ter piada) é o mais representativo nestas noites de alegre paródia, e é, normalmente, composto exclusivamente por seres do sexo masculino. Na maioria das vezes, dentro do seio destes grupos, existe um macho-alfa, cuja posição de chefia se assinala pela quantidade de brilhantes que ostenta na sua roupa e pelo tamanho do “V” na gola da t-shirt (quanto mais abaixo o “V” da gola chegar, mais dominante e selvagem é o macho-alfa, sabendo que, quando estamos perante um espécime que apresenta um “V” até ao umbigo, podemos esquecer qualquer racionalidade) . Este, o macho-alfa, decide  qual o tema que vão cantar e quando o vão cantar, os outros apenas o seguem. Os temas mais escolhidos inserem-se naquilo a que a imprensa musical decidiu apelidar de “Música Pimba”, destacando-se as faixas musicais de Joaquim Barreiros como as mais tocadas. A actuação deste grupo de Idiotas é bastante simples, baseia-se na premissa de que todos  têm de estar bêbedos, ou de se fazerem bêbedos, para depois balirem cada um para seu lado, fazendo expressões faciais semelhantes ao ritual de acasalamento dos gorilas africanos, numa clara reminiscência dos seus tempos pré-históricos, que Darwin não descuraria analisar. No final da performance, todos se abraçam ou empurram e saem de cena exclamando “palavras” numa linguagem rudimentar.

O segundo grupo (os idiotas que vão cantar sozinhos de olhos fechados) é composto, na sua maioria, por seres do sexo feminino ou por seres do sexo masculino calvos (por vezes calvos no topo da cabeça mas apresentando cabelos compridos nos lados e na nuca, atados com um elástico, naquilo a que se chama um “rabo de cavalo”). Este grupo monopoliza, durante grande parte da noite, o controle do microfone, passando, muitas vezes, por cima do primeiro grupo de Idiotas, o que os torna um animal extremamente perigoso de enfrentar. Normalmente, neste grupo de Idiotas, proliferam aqueles que, não conseguindo ter uma carreira na música, têm no Karaoke o ponto alto da sua vida. Este grupo tem especial apreço por baladas românticas, sendo de João Pedro Pais, Mafalda Veiga e Rui Veloso os temas mais vezes requisitados. A sua actuação é já bastante complexa. Começam por se dirigir ao microfone de semblante carregado, mostrando as mágoas e os tormentos típicos de um artista do seu calibre, para, de seguida, tentarem levantar voo, abrindo bastante o braço que não segura o micro e movimentando-o de cima para baixo repetidamente. Neste momento os olhos fecham-se, guardando para si as emoções do Idiota. Durante a actuação assiste-se a variações várias (passe a redundância) da voz do Idiota, que muito se assemelham ao barulho que um Iaque faz ao ser baleado. A expressão facial é, no momento mais alto, um misto de orgasmo com prisão de ventre, para, no final, dar lugar a um espasmo muscular, muito semelhante a uma trombose. No final, saem de cena com um sorriso envergonhado e espontâneo, milhares de vezes ensaiado frente ao espelho.

O terceiro grupo (os Idiotas que vão cantar porque alguém, secretamente, os inscreveu) é o menos representativo nestas noites de ramboia, mas, talvez o mais fascinante. Este grupo é composto por seres de ambos os sexos. Normalmente, este grupo, faz parte dos outros dois, ou seja, os elementos deste grupo de Idiotas estão dentro dos outros dois grupos de Idiotas. Na maioria das vezes, o Idiota deste grupo faz entender que quer ir cantar através de frases como “até eu canto melhor”, “isto é fácil”, “a mim é que não me apanham ali”, etc. , até que, alguém dos outros grupos o inscreva para cantar, fazendo-lhe a secreta vontade. Este grupo não tem preferência por qualquer tema musical, aceitando tudo. A sua actuação reveste-se de um quase misticismo, pois enquanto canta, este Idiota vai proferindo frases como: “agora é vai ser bonito”, “quem é que me meteu nesta?” ou “Ai a minha vida…”. A sua expressão varia entre o profissional sério e o olhar de falsa surpresa. No final, o Idiota sai sorrindo, não sem antes proclamar algo como “já não me apanham noutra”, desaparecendo com a sua escondida ânsia de protagonismo momenteneamente satisfeita.

Existem, ainda, várias outras sub-espécies de “Idiotas” que pululam neste estranho ecossistema, como, por exemplo: os-Idiotas-que-namoram-e-fazem-duetos-para-mostrar-que-são-um-casal-tão-bom-mas-tão-bom-que-até-cantam-juntos-e-têm-coreografia-ensaiada-para-a-música-que-estão-a-cantar; o Idiota animador do Karaoke; o Idiota que vai cantar mas não conhece a música; etc. Mas  o estudo destas sub-espécies ficará para outra altura, quando me deixarem sair de Vale de Judeus… sim, não me digam que estavam à espera que levasse a cabo esta tese sem estudar as entranhas dos observados?!


Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: